terça-feira, janeiro 11, 2005

Liberalismo para Leigos, liçāo 1: A Etica Individualista

Bom, já que decidi criar um blog sobre Liberalismo, a primeira pergunta é óbvia: o que é Liberalismo?

Essa é uma boa pergunta que pode ter várias respostas, todas igualmente válidas. Pergunte a dez liberais e você terá algo entre 10 e 15 respostas. Mas isso é normal: ao contrário, por exemplo, do socialismo, o Liberalismo nao é uma ideologia (no sentido de tentar construir um modelo coerente e completo para explicar e modificar o mundo), mas sim um conjunto de idéias derivadas de uma fonte comum. O Liberalismo é, antes de mais nada, um conjunto de preceitos éticos. Comecemos pois pelo primeiro e mais importante: a Ética Individualista.

O termo "individualista“ têm uma conotaçāo negativa na nossa cultura (graças a décadas de propaganda esquerdista tentando associá-lo com egoísmo), mas isso é completamente desmerecido.

Para explicar a Ética Individualista, recorrerei ao bom e velho Friedrich A. Hayek, economista e filósofo austríaco, ganhador do Nobel de Economia de 74 e considerado por muitos (eu incluso) como um dos maiores pensadores liberais de todos os tempos e um dos gigantes intelectuais do século 20. No capítulo cinco do livro A Constituiçāo da Liberdade ("The Constitution of Liberty"), Hayek assim explica a relacāo entre o indivíduo, a liberdade e a sociedade (a traduçāo é minha):

"Liberdade nāo significa apenas que o indivíduo possui tanto a oportunidade quanto o fardo da escolha; também significa que ele deve arcar com as consequências de suas ações e será reconhecido ou responsabilizado por elas. Liberdade e responsabilidade são inseparáveis. Uma sociedade livre não funcionará, nem tampouco conseguirá manter-se, a menos que seus membros considerem correto que cada indivíduo ocupe o lugar nela que resulte de sua ação e o aceite como consequência desta.“

Neste curto parágrafo, Hayek resume de forma brilhante os elementos fundamentais da Ética Individualista: liberdade para o indivíduo perseguir os objetivos que lhe bem aprouverem; responsabilidade do indivíduo pelos resultados derivados de suas ações, sejam eles positivos ou negativos; e estabelece que as relacoes entre os indivíduos são governadas pelo respeito de todos a esses princípios. Basicamente, a Ética Individualista diz que cada um de nós é responsável pela sua própria vida, e que culpar os outros, ou as circunstâncias (ou a "sociedade“) pelos nossos problemas é errado, a menos que a influência desses outros elementos possa ser claramente e indiscutivelmente demonstrada.

É desnecessário comentar sobre como essa ética desagrada muitos. Ainda nos mesmos livro e capítulo, Hayek faz o seguinte comentário:

"Esta crenca na responsabilidade individual, que sempre foi forte quando as pessoas firmemente acreditavam na liberdade individual, declinou de forma marcante, juntamente com o apreço pela liberdade. Responsabilidade tornou-se um conceito impopular, uma palavra que oradores e escritores experientes evitam devido à óbvia chateação e animosidade com que ela é recebida por uma geração que não aceita nenhum tipo de moralismo. Ela frequentemente evoca a mais aberta hostilidade de homens que foram ensinados que nada além de circunstâncias sobre as quais eles não têm controle algum determinam suas posições na vida ou mesmo suas açoes. Essa negaçao da responsabilidade, contudo, é comumente originada pelo medo desta, um medo que necessariamente também torna-se medo da liberdade. É sem sombra de dúvida porque a oportunidade de construir a própria vida também significa um trabalho incessante, e a aceitação de uma disciplina que o homem deve auto impor-se para alcançar seus objetivos, que faz muitas pessoas terem medo da liberdade.“

A aceitação da liberdade e da responsabilidade individuais como fundamentais e interligadas têm uma razão clara de ser: apenas indivíduos são capazes de raciocínio e, portanto, de ação racional. Quando tropeçamos em uma pedra, culpamos a pobre rocha pelo nosso dedão dolorido? Obviamente nao (embora a tentação às vezes seja grande). Ela simplesmente estava lá. Incapaz de raciocínio e portanto de ação racional, ela não é culpada dos problemas que venha a causar. Quem é responsável é a pessoa que, ao não prestar atencão no caminho por onde ia, inadvertidamente tropeça nela. A pessoa é capaz de raciocínio, e portanto, de ação racional. Se não agiu de forma adequada diante do problema, a ela cabe o ônus da sua inação ou inépcia.

Isso também significa que apenas indivíduos podem ter responsabilidades e diretos. Coletividades de qualquer tipo nada mais são do que agremiações de pessoas. As pessoas que delas fazem parte têm direitos e responsabilidades, não o grupo em si. Coletivos não existem: eles não são fisicamente separados dos seus membros, não existem sem eles, e são incapazes de raciocínio e ação por si sós. Quando dizemos que um grupo ou entidade (como o Estado) age, na verdade estamos nos referindo às ações de membros da coletividade em questão que, em nome desta, tomam ações usando de suas próprias capacidades individuais.

Com isso, definimos claramente que a origem de toda a atividade humana é o indivíduo. Ele é a origem de todo o valor para a sociedade. É do raciocínio e da ação individuais que emerge a atividade criadora do ser humano. E sobre o indivíduo, e não sobre o coletivo, que repousa a base da civilização.

Não tenho como ressaltar com suficiente ênfase quão importante é essa definição. Todo o pensamento liberal repousa sobre essa simples, mas ao mesmo tempo complexa, constatação: de que só o indivíduo é capaz de ação e raciocínio, e portanto só a ele cabem direitos e deveres. Quem entender esse conceito e todas as implicacões que dele emergem, já andou metade do caminho para entender o Liberalismo.

Na semana que vem temos a Lição 2: A Ética Coletivista. Aguardem...

8 Comments:

At quarta-feira, janeiro 12, 2005 2:09:00 PM, Blogger Gera said...

Tenho que confessar que sou leigo no assunto, mas vou arriscar algumas considerações. Talvez falte um pouco de conhecimento sobre o liberalismo. Portanto, espero que a discussão evolua.

Vejo um problema que considero crucial nessa teoria da ética individualista. Trata-se da capacidade das pessoas em pensar nas conseqüências sobre os outros e não apenas sobre si mesmo. Nesse sentido o individualismo pode, sim, ser egoísta, mesmo que não deva ser assim. Como as pessoas pesam as conseqüências? A ética, por definição, deve considerar o bem comum.

O funcionamento do liberalismo deveria vir acompanhado de uma grande e significativa reavaliação dos valores de cada indivíduo para que tivéssemos uma postura mais solidária das pessoas. Para que as conseqüências das ações de muitos não fossem tão nefastas.

Outra coisa que me chama a atenção é a questão da coletividade que você apresenta. Por mais que a ação seja gerada por indivíduos e não por um “ser coletivo”, suas ações costumam ser pautadas numa idéia de um ente coletivo. Dou um exemplo: quantas vezes gestores de uma empresa tomam decisões em desacordo com o seu íntimo, com a sua noção de certo e errado, mas de acordo com os interesses da empresa (uma coletividade), criando o que se denomina ‘dissonância cognitiva’. Inúmeros argumentos falsos do tipo “mas não é tão ruim assim e, se eu não fizesse, alguém faria...” são criados para que a pessoa busque ter a consciência tranqüila, mesmo que aja contra os seus princípios.

Eu até acho que as coisas podem se encaminhar para o que você conceituou como liberalismo, mas a realidade está longe se configurar numa situação ideal do ponto de vista social. As pessoas precisariam aprender a pensar mais nos outros antes de adotar esse liberalismo. Não dê uma faca na mão de uma criança que ela pode se machucar e ferir outras pessoas, mesmo que o instrumento tivesse apenas a função de passar manteiga no pão.

Acredito que algumas ações já estão tendendo a provocar uma transformação. Empresas, por exemplo, estão adotando o conceito de responsabilidade social aliado à ética o que, na minha opinião, poderia ser um caminho para se entender a real finalidade das empresas, suas responsabilidades e as conseqüências de suas ações. Atualmente, porém, as pessoas ainda não absorveram o real conceito da responsabilidade social, mas acho que isso é uma questão de tempo. Só não sei quanto tempo...

Creio que pensar em que sistema ideológico se apoiar é quase irrelevante perto da importância de reavaliarmos e transformarmos os nossos valores para que possamos viver em um mundo melhor.

Um grande abraço!

 
At quarta-feira, janeiro 12, 2005 7:09:00 PM, Blogger Luiz Simi said...

Gera,

Os seus comentários sao pertinentes. Vamos por partes:

1) É claro que na ética individualista as pessoas podem ser egoístas. Mas qual é o sistema ético em que isso nao ocorre? O egoísmo é um elemento da psique humana, assim como o autruísmo, o amor, o ódio ou a cobiça. É por isso que o individualismo se pauta tanto pela liberdade do indivíduo para perseguir seus objetivos, como na responsabilidade de cada pelos seus atos. Nao podemos (e diria mais, nao devemos) tentar impedir as pessoas de serem egoístas ou interesseiras; o que temos que fazer é garantir que elas sempre arquem com as consequências plenas das suas açoes. Apenas a certeza de que as consequências (boas e ruins) dos seus atos recairao sobre o indivíduo responsável levarao às pessoas a refeletir com responsabilidade sobre suas acoes.

2) A questao da dissonância cognitiva é boa; acho que até tentarei abordar o tema mais a fundo em um próximo artigo. Mas neste momento basta dizer que o conflito ético de que falamos nasce justamente do predomínio da chamada ética coletivista (sobre a qual postarei na semana que vem) e seu choque frontal com a ética individualista (que devo ressaltar, é na realidade a moral que aprendemos em casa, com nossos pais e família, e parte da famosa "sabedoria popular" que tao prontamente ignoramos quando chegamos à adolescência). O fato de que achamos que um coletivo têm existência diferenciada ou que nos exime de alguma forma da culpa dos nossos atos amorais é parte da ética coletivista.

3) A necessidade da reflexao aprofundada e do entendimento mais claro do papel de cada um na comunidade é fudamental para que a ética individualista seja viável e funcione. É justamente essa discussao que eu espero ajudar a atiçar.

Sds,

Luiz.

 
At quinta-feira, janeiro 13, 2005 10:27:00 AM, Blogger Gera said...

Talvez minhas colocações passem a impressão de que sou contrário ao liberalismo. Na verdade não sou contra, nem a favor (até porque, como já observei, não conheço a fundo a teoria). Mas aproveito suas colocações para filosofar um pouco a respeito.

Acredito que qualquer sistema político pode dar lugar ao egoísmo, mas não um sistema ético. Talvez seja interessante discutir um pouco o significado da ética. No meu entendimento, pelo menos, a ética está associada ao bem e é por isso que não combina com egoísmo.

Mas acho que fugi um pouco da questão principal. Concordo plenamente com a sua colocação sobre responsabilidades e conseqüências. Só acho difícil garantir que as conseqüências recaíam sobre o indivíduo responsável, pelo menos sob o ponto de vista da lei humana. Muitos acabam tendo uma vida tranqüila e impune. Até acredito que, sob um ponto de vista mais amplo (vidas sucessivas – acho bom não começarmos essa discussão nesse post – He, he, he), a lei natural de causa e efeito se aplica de maneira mais justa e pode ser melhor compreendida, mas não é essa a visão de mundo de muitas pessoas.

No que se refere à questão da ética individualista versus a coletivista, vou aguardar seu próximo post. Só adianto que, o fato de enxergarmos o coletivo, não significa que devemos atribuir ao coletivo a culpa pelos nossos atos amorais. Concordo com você. Eu só acho que não é conveniente centrar um sistema de pensamento no indivíduo, mas sim nas relações entre eles, no coletivo. Pensando no todo, estarei certamente privilegiando a parte. O inverso não é verdadeiro.

Gostaria de dar uma sugestão: acho que você poderia explorar um pouco as razões pelas quais muitos se colocam contra o liberalismo. Acredito que muitas pessoas esclarecidas trazem bons argumentos. Isso poderia enriquecer a discussão. Tenho que dizer que meu desconhecimento também abrange outras teorias como o o socialismo, por exemplo. Nunca estudei esses assuntos a fundo, apesar de meu interesse. Como uma pessoa neutra, eu diria que me agradaria muito ver os dois lados da moeda.

Arrisco dizer que todas essas teorias acabam tendo sua lógica e devem ter como finalidade uma vida melhor em sociedade (ou não?). Todos devem ter as melhores intenções ao defender o seu sistema. Qual seria mais adequado? Será que dá para responder essa pergunta? A grande questão não seria sobre quais os valores considerados pela sociedade? Na minha opinião, no dia em que definirmos claramente (esse “claramente” é importante) um destino comum (o bem), não importará a estrada que escolhermos para caminhar.

 
At quinta-feira, janeiro 13, 2005 10:58:00 AM, Blogger Luiz Simi said...

Gera,


acredito que no meu próximo artigo (sobre a ética coletivista), conseguirei responder os seus questionamentos. Mas por ora, vou colocar dois pontos para você pensar:

1) Uma boa definicao de ética pode ser encontrada no seguinte site: http://www.sinescontabil.com.br/etica/o_que_e_etica.htm. Acredito que você está misturando moral com ética; elas sao diferentes, embora relacionadas.

2) A ética individualista foca-se nas relacoes do indivíduo: todo sistema ético faz isso. A diferenca em relacao à éticas coletivistas é a ênfase na capacidade de cada indivíduo em julgar o que é certo ou errado, e a liberdade que este têm em adotar as acoes que considerar corretas ou apropriadas de acordo com a situacao. A alternativa é colocar a responsabilidade em determinar o que é certo ou errado nas maos do coletivo (leia-se Estado). Mas aí temos um paradoxo: estamos assumindo que as pessoas sao inerentemente incapazes de entender a diferenca entre bem e mal enquanto indivíduos, mas que em conjunto adquirem essa capacidade. Oras, todos nós sabemos que, quando maior a turba, maior é a sua irracionalidade. Daí a lógica em colocar nas maos do indivíduo o julgamento moral sobre suas próprias acoes (e sobre suas costas, a responsabilidade por elas).

3) Nao misturemos Ética com Lei. A Lei existe, até certo ponto, como reflexo de um sistema ético; mas ela também é uma ferramenta de coercao do Estado sobre o cidadao. O fato de que as pessoas podem escapar impunes da Lei nao significa que escaparao impunes da Ética: lembro-me sempre de um personagem de história em quadrinhos que é desmascarado pelo herói e entregue à justica. No fim, ele escapa por meio de procedimentos judiciais, mas sente-se derrotado. Furioso, ele diz o seguinte ao seu lugar-tenente: "aos olhos de todos, menos da lei, eu sou um criminoso". Pense nisso... você pode escapar do julgamento da Lei, mas pode escapar do julgamentos dos seus pares, familiares, amigos, vizinhos?

 
At quinta-feira, janeiro 13, 2005 10:59:00 AM, Blogger Luiz Simi said...

Gera,


acredito que no meu próximo artigo (sobre a ética coletivista), conseguirei responder os seus questionamentos. Mas por ora, vou colocar dois pontos para você pensar:

1) Uma boa definicao de ética pode ser encontrada no seguinte site: http://www.sinescontabil.com.br/etica/o_que_e_etica.htm. Acredito que você está misturando moral com ética; elas sao diferentes, embora relacionadas.

2) A ética individualista foca-se nas relacoes do indivíduo: todo sistema ético faz isso. A diferenca em relacao à éticas coletivistas é a ênfase na capacidade de cada indivíduo em julgar o que é certo ou errado, e a liberdade que este têm em adotar as acoes que considerar corretas ou apropriadas de acordo com a situacao. A alternativa é colocar a responsabilidade em determinar o que é certo ou errado nas maos do coletivo (leia-se Estado). Mas aí temos um paradoxo: estamos assumindo que as pessoas sao inerentemente incapazes de entender a diferenca entre bem e mal enquanto indivíduos, mas que em conjunto adquirem essa capacidade. Oras, todos nós sabemos que, quando maior a turba, maior é a sua irracionalidade. Daí a lógica em colocar nas maos do indivíduo o julgamento moral sobre suas próprias acoes (e sobre suas costas, a responsabilidade por elas).

3) Nao misturemos Ética com Lei. A Lei existe, até certo ponto, como reflexo de um sistema ético; mas ela também é uma ferramenta de coercao do Estado sobre o cidadao. O fato de que as pessoas podem escapar impunes da Lei nao significa que escaparao impunes da Ética: lembro-me sempre de um personagem de história em quadrinhos que é desmascarado pelo herói e entregue à justica. No fim, ele escapa por meio de procedimentos judiciais, mas sente-se derrotado. Furioso, ele diz o seguinte ao seu lugar-tenente: "aos olhos de todos, menos da lei, eu sou um criminoso". Pense nisso... você pode escapar do julgamento da Lei, mas pode escapar do julgamentos dos seus pares, familiares, amigos, vizinhos?

 
At segunda-feira, abril 10, 2006 12:29:00 AM, Anonymous Washington said...

Ola, não sou um estudioso do assunto, porem lastimo que o link para a definição de Etica, não estja funcionando.

 
At segunda-feira, março 17, 2008 3:36:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Conheça o pensamento do jurista Goffredo Telles Junior, um gênio da filosofia e do direito. Um dos juristas brasileiros mais reconhecidos.

Ele é um dos maiores teóricos da liberdade q eu já conheci, e se autodefine, por isso mesmo, como socialista. Um democrata!!! É contra o comunismo e o estado totalitario. Procure no google que vc acha o site dele com vários artigos. Me mande email contando o que achou: diegodmendes@hotmail.com Abraço!!

 
At sexta-feira, novembro 20, 2009 1:36:00 AM, Anonymous Anônimo said...

o que eu estava procurando, obrigado

 

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