sexta-feira, janeiro 14, 2005

Liberdade e Responsabilidade: faces da mesma moeda

Na sociedade em que vivemos, é muito fácil sentir-se impotente. Em um mundo com 6 bilhões de pessoas, é fácil imaginar que qualquer um de nós não faz diferença alguma no "grande esquema das coisas". Acredito que essa é uma das principais razões pelas quais a maioria das pessoas (mesmo gente extremamente inteligente e culta) acaba por aceitar as idéias socialistas/coletivistas: afinal, se somos individualmente insignificantes, por que não entregar a responsabilidade de fazer a diferença a algo maior do que nós mesmos, uma grande entidade coletiva capaz, ela sim, de jogar o "jogo de cachorro grande" da civilização moderna? Uma entidade como, por exemplo, o Estado?

Sob um aspecto, isso é verdade. Individualmente somos capazes de fazer muito pouco no grande quadro geral. Mas isso não significa, de forma alguma, que somos desimportantes ou insignificantes. Muito pelo contrário.

Entregar a nossa (pequena, é verdade) capacidade de transformação a uma entidade coletiva é, na prática, renunciar dela. Como já coloquei no post "Liberalismo para Leigos, Lição I: A Ética Individualista", coletivos sao na realidade apenas coleções de indivíduos, sem existência separada de seus membros. Ao delegar ou renunciar da nossa capacidade de transformação em prol de um coletivo, estamos na realidade dando um mandato a outras pessoas para tomarem decisões por nós. Quem? Os "líderes" desse coletivo específico.

Até aí, isso não é necessariamente negativo. Essa é a essência dos conceitos de Estado e governo democráticos: a delegação de poderes pelos indivíduos a um grupo escolhido para executar ações em determinadas áreas, com certas limitações à sua autoridade e autonomia, em nome do bem-estar de todos. Em princípio, isso é aceitável e compatível tanto com a dignidade humana quanto com a liberdade individual.

O problema é quando começamos a delegar ao coletivo a responsabilidade por atividades que são, pela sua própria natureza, de foro privado.

Um exemplo é a questão da programação de TV. Quantas vezes não vemos gente clamando por mais "controle" por parte do governo sobre o conteúdo transmitido, sempre em nome da "moralidade" e da "defesa das crianças inocentes"? Mas aí eu pergunto: não seria função dos pais orientarem seus filhos sobre o que é saudável ou não? Não seria mais lógico e adequado, se nos sentimos ofendidos por um determinado programa, que simplesmente mudemos de canal ou desliguemos o aparelho? Ou, se por demais tomados por uma sanha moralizante, que mandássemos cartas, abaixo-assinados e afins à emissora responsável exigindo mudanças?

Mas não. O que muita gente quer é ser liberada do fardo da responsabilidade. Assim, é mais fácil delegar esse julgamento de valor (e a ação cabível a partir do resultado deste) para uma instância "superior". Assim nunca nos sentimos diretamente responsáveis pelos erros ou acertos de quem recebeu a responsabilidade (e o poder) de decidir. Mal percebemos que, ao abrir mão da responsabilidade de agir, também perdemos a liberdade de fazê-lo. Colocamo-nos como súditos de outros, que farão por nós o julgamento do que é apropriado ou não para nós mesmos. É a forma mais completa de alienação e sujeição.

A conexão entre liberdade e responsabilidade é inalienável. Não tenhamos ilusões: abrir mão da segunda sempre resulta em perder a primeira. Se queremos ser livres, devemos ter sempre em mente que devemos assumir a responsabilidade por nossas próprias vidas. Delegar essa responsabilidade a outros significa escravidão, pura e simples.

4 Comments:

At sexta-feira, janeiro 14, 2005 9:36:00 AM, Blogger Gera said...

Concordo.
E digo mais:
Quantas vezes subestimamos a nossa própria capacidade de ação? Fico irritado quando as pessoas fazem referência ao "trabalho da formiguinha". Querem dizer que se cada um fizer a sua parte, vamos em frente. Até aí, tudo bem. O problema é que uma colocação dessas geralmente vem acompanhada de um execesso de humildade que leva as pessoas à inação.

Só para não deixar de levantar uma certa polêmica (he, he, he), muitas decisões como essa de censurar programações, por exemplo, podem ser definidas por leis criadas de maneira a representar a vontade da maioria da população (vários entes individuais expressando o seu desejo). E aí?

Também acho que o desejo dessas pessoas pode muito bem ser justificado de maneira racional.

Bom, até aqui, eu diria que concordo com o conceito de liberdade associado à responsabilidade, mas também associado à educação. O processo de educação não se completa instantaneamente. Você deixaria seu filho brincar com uma arma sabendo que ele não tem conhecimento sobre as conseqüências resultantes do puxar de um gatilho? Ele obtém esse conhecimento de uma hora para a outra? É por isso que eu acho que devemos tender a um liberalismo de maneira gradual aliando cada passo a um desenvolvimento cultural.

 
At sexta-feira, janeiro 14, 2005 3:32:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Colegas liberais, me junto a voces no objetivo da causa mas tento defender meu ponto: A implementacao do ato de "delegar" e do lívre "arbítrio".

O entendimento da liberdade vem da interpretacao da alma humana. E nada novo é julgar a idiótica utopia de Marx: a de que somos iguais... E nao podemos cair nessa outra vez... Por favor!

Nem todos somos líderes (ainda bem que nao)e nem todos somos liderados. Generalidades sao um grande equivoco neste contexto.

Acredito que se partimos do pressuposto muito bem defendido pelo autor do texto (meu colega Simi) de que liberdade vem com responsabilidade, muitos continuarao escravos da falta da última. Mas muitos por opcao. E estes têm a sensacao da liberdade, escopo nobre da causa.

Para isso lutamos, na quase desesperada tentativa de um mundo com oportunidades iguais a pessoas diferentes. Mas que saibamos que nao mudaremos a essencia de cada um e nao há nada mal nisso. A sensacao da liberdade vem da oportunidade, da opcao, nao a responsabilidade.

Alienacao é diferente de escolha. Mesmo que essa última seja a renúncia de direitos. Cada um se concentra no que faz melhor. A oportunidade que traz a globalizacao.

E isso me leva ao pensamento filosófico do óbvio em tom de perplexidade:

"O mundo continuará guiado por poucos e obedecido por muitos..." (Só queria que fosse por escolha e nao por autoridade)

Que bom que existem os que gostam do Sepultura, os travestis e o mico-leao dourado.

Parabéns pelo Blog e pelas idéias nele defendidas!

Um grande abraco do seu amigo siemático-liberal-bucólico-mexicano e sempre polemico Pedro Garaude

 
At domingo, janeiro 16, 2005 8:38:00 AM, Blogger Luiz Simi said...

Gera:

A vontade da maioria nao torna alguma coisa automaticamente aceitável para o pensamento liberal. Se, para que a vontade da maoria prevaleca, a minoria deva ter sua liberdade sacrificada, a resposata liberal é uma só: nao. Mesmo que a maoria queira censura, no nosso exemplo, a abolicao da liberdade da minoria que deseja continuar escolhendo livremente o que assistir nao pode ser aceita. Essa é a razao pela qual, em democracias liberais, o papel da oposicao na política é claro e aceito: ela representa a voz discordante, da minoria que foi derrotada nas urnas mas que nem por isso deve ser ignorada pelos governantes.

A vontade da maioria pode ser tao ditatorial quanto a vontade de poucos. Daí o conceito liberal de liberdade, tao bem explicitado pelo colega Pedro Garaude no seu comentário: a manutencao de opcoes para as pessoas. Qualquer coisa que negue as pessoas opcoes (mesmo que apoiada pela maioria) é tirânica e portanto, anti-liberal.

Quanto ao exemplo da crianca com a arma, acho que o caso é claro: é responsabilidade dos pais nao apenas evitar que isso aconteca, como orientar os filhos sobre o tema. De novo, o casamento entre liberdade e responsabilidade: nos temos a opcao de ter filhos ou nao; mas se decidimos por tê-los, devemos assumir a responsabilidade de criá-los e educá-los.

 
At segunda-feira, janeiro 17, 2005 11:31:00 AM, Blogger Gera said...

O único problema é que ainda somos crianças para muitos assuntos... Enquanto isso, o que fazer? Ainda acredito que durante o processo de educação é preciso existir algumas restrições a ação.

Cito como exemplo, a liberalização do uso de drogas. Sou contra. Sou a favor de um processo conscientização de seus malefícios orgânicos, sociais e espirituais, mas, enquanto isso é incipiente, a liberalização pode aumentar os prejuízos à população.

Sei que, mesmo com a restrição, muita coisa acontece por baixo dos panos, mas acredito que seria muito pior se ocorresse a liberalização.

 

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