sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Liberalismo para Leigos, Lição 5: Interesse Próprio

Um dos grandes temas das discussões filosóficas e políticas de ontem e hoje é o elusivo conceito da “natureza humana”: o que motiva as pessoas? O que define o comportamento humano?

Muitos leitores certamente estão familiarizados com as posições antagônicas de dois dos grandes pensadores iluministas, Russeau e Hobbes. O primeiro defendia, de forma concisa, que o Homem é naturalmente bom, mas as instituições corrompem; o segundo cunhou a famosa frase, “o Homem é o lobo do Homem”, para ilustrar a suposta natureza maléfica do ser humano, que deveria então ser controlado por instituições que o impedissem de prejudicar a si mesmo e a outros. Desnecessário dizer que, na era de cinismo em que vivemos, Hobbes é considerado muito mais acurado nas suas descrições das motivações humanas do que seu grande oponente.

Mas não é na obra desses pensadores que encontramos o entendimento real sobre a motivação humana. Apesar de opostos em suas conclusões, tanto Russeau quanto Hobbes falharam em suas análises por cair na mesma armadilha: tentar identificar elementos morais nas bases do comportamento humano, sendo que a moralidade é um traço cultural, e portanto posterior à existência do Homem. Além disso, as amplas generalizações que ambos faziam pouco contribuíram para o entendimento da diversidade de comportamentos que as pessoas apresentam. O simples fato de que existem tanto pessoas que enquadram-se no modelo de Russeau quanto no de Hobbes é sinal de que nenhum dos dois oferece uma resposta definitiva. Devemos pois voltar nossa atenção a um terceiro autor que conseguiu resolver o enigma: John Locke.

Ao invéz de buscar na moral as bases do comportamento humano (embora entendesse que os homens são naturalmente seres morais), Locke focou-se não em como as pessoas agem, mas no porquê da sua ação. E com base nessa observação, Locke concluiu que o interesse próprio é a base da motivação dos seres humanos.

Podemos dizer com segurança que a descoberta de Locke foi fundamental para a grande revolução liberal que mudou a face do planeta, derrubou o Absolutismo e o Feudalismo, e abriu as portas para a revolução industrial e a economia de mercado. Poucos autores tiveram tanto impacto na história do pensamento humano quanto ele.

O interesse próprio é a resposta que tanto Rosseau quanto Hobbes não puderam encontrar. Em nome dos nossos interesses pessoais podemos agir de forma nobre ou vil, autruísta ou egoísta, pacífica ou violenta. O bem e o mal são diferentes formas de buscar satisfazer nossos desejos e necessidades. O mais desprendido dos seres age por interesse próprio; ele pode considerar que está “fazendo a coisa certa” ao ajudar o próximo, e tira uma satisfação particular, absolutamente pessoal de seguir esse princípio. Da mesma forma, o ladrão que mata sua vítima para apossar-se dos seus bens é movido pelo interesse próprio.

A principal forma que os seres humanos têm de buscar seus interesses pessoais é organizando-se em sociedade. Enxergamos pois a sociedade como o meio que os indivíduos usam para alcançar seus fins, não um fim em si mesmo.

No coração da organização social está a compreensão racional e intuitiva de que a cooperação é o melhor caminho para alcançar nossos objetivos. Ao ajudar os outros a obterem o que desejam, obtemos deles ajuda para satisfazer nossos próprios desejos. A ordem social não se mantém porque um governo a impõe; ele emerge e desenvolve-se porque é a forma mais eficiente que os homens encontraram de buscar melhorar seu padrão de vida e ampliar seu conforto. Se somos movidos por interesse próprio, não é racional impedir as pessoas de buscarem atender suas necessidades e desejos; isso impediria a organização em sociedade de justamente exercer sua função central.

O interesse próprio, como o nome já indica, é algo pessoal, individual. Assim sendo, apenas o indivíduo é capaz de entender com precisão o que deseja; um indivíduo não é capaz de entender os desejos de outros com a mesma clareza e riqueza de informação que compreende os seus próprios. Assim, racionalmente, somente o indivíduo é em princípio capaz de decidir qual é o melhor caminho para atingir seus próprios objetivos. Daí depreendemos que os indivíduos precisam de uma esfera de liberdade de ação que lhes permita buscar o caminho mais eficiente para os seus objetivos com base em suas próprias habilidades e conhecimento. Essa esfera é definida na forma de direitos inalienáveis: vida, liberdade (compreendida como ausência de coerção por terceiros), propriedade (para usurfruir livremente dos frutos do seu trabalho), e a busca da felicidade. Assim, entendemos que a violação desses direitos representa o mal, por impedir as pessoas de perseguirem seus objetivos; e qualquer coisa que as auxilie nessa busca, sem violar os direitos de ninguém, é classificável como bom.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar que sempre existirão aqueles que procuram satisfazer seus desejos de forma violenta, tirando dos outros o que querem. Daí a nescessidade do Estado. A ele é dado o monopólio do uso da força, e a autoridade para usá-la apenas dentro de regras gerais, conhecidas e previsíveis, para que aqueles que tentam atingir seus objetivos de forma parasitária sejam punidos e impedidos de prosperar.

Da nescessidade de garantir a justiça no uso da coerção, surge o conceito do Império da Lei: que todos devem ser tratados pelo Estado da mesma forma, sem distinção de nenhum tipo. Ao garantir tratamento igualitário de todos pela Lei, busca-se impedir que o Estado interfira nos direitos fundamentais de cada cidadão de forma arbitrária ou discriminatória. Somente assim é possível criar um ambiente social em que as habilidades, interesses e conhecimento de cada um possam ser empregados em sua máxima eficiência.

Em suma: o interesse próprio não é negativo, nem nescessariamente sinônimo de egoísmo ou ganáncia. Somente sua busca de forma parasitária, violando os direitos das outras pessoas, é condenável. Isso será objeto de outro artigo.

2 Comments:

At terça-feira, março 01, 2005 5:57:00 PM, Anonymous Pedro Garaude said...

Remédio contra parasitas

O texto está muito bem escrito e é muito feliz na análise do perfil psicologico do individuo. Erro muitas vezes cometido por grandes filósofos.

Entretanto faco aqui mais que uma análise, um apelo: Parcerias e confianca podem ser um remédio importante contra os parasitas.

O interesse do individuo é real e circunstancial, mas a história comprova fatos interessantes sobre o interesse comum e exemplos positivos sobre a consonancia de ambos.

A Itália, por exemplo, tem grande discrepancia de desenvolvimento entre o sul e o norte. Este último, mais atrasado, foi internacionalmente conhecido pelas organizacoes mafiosas. Os sicilianos, sempre desconfiados e crentes que o interesse pessoal e predatório era sua arma contra o mal do capitalismo de interesses (dificil dizer qual era causa que era efeito).

O norte no entanto, visualmente mais evoluído, cresceu baseado na confianca. Apostava-se que o interesse do individuo refletiria no interesse público. Grandes parcerias foram formadas. Estradas, fabricas e sociedades com os vizinhos suicos e franceses foram determinantes em sua história no inicio do seculo XX.

E para os que acham que fui muito longe, quero comentar sobre Alphaville, onde cresci e vivi por mais de 20 anos. Quem apostou junto com Takaoka na decada dos 70 e 80 e investiram no projeto que muitos qualificaram como megalomaniaco ou inconsequente, ficaram ricos com ele.

Para alguém ganhar nao é necessário que alguém tenha que perder...

Apelo aos liberais de plantao, que o incentivo ao interesse do individuo desperte também o interesse comum, nem que seja necessário dizer que fazendo bem ao proximo o individuo faz bem a si mesmo.

Um remédio interessante para comportamentos "Blazet" e os inevitáveis alienados.

 
At quinta-feira, março 03, 2005 5:29:00 PM, Blogger Luiz Simi said...

Pedro,

como sempre, os seus comentários são muito bons. Obrigado por tocar nesse ponto. Será objeto de um artigo futuro.

 

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