sexta-feira, março 04, 2005

O Homem Primata e a Sociedade Moderna

Desde os primórdios, até hoje em dia/ o Homem ainda faz o que o macaco fazia
Titãs, "Homem Primata"

Quando escreveram a letra dessa canção, provavelmente os Titãs não tinham a menor idéia de quão certos estavam. Os recentes avancos na área de Psicologia Evolutiva (Evolutionary Psychology) parecem indicar que realmente agimos como nossos ancestrais paleolíticos.

Um artigo recente de Will Wilkinson, do Cato Institute dos EUA, (disponível aqui), faz um sumário esclarecedor dos recentes avanços no estudo de como o funcionamento da mente humana é resultado das pressões da seleção natural sobre os nossos antepassados no Pleistoceno. Durante esse período (entre 1.6 milhão e cerca de 8.000 a.C), os seres humanos sobreviviam da caça e da coleta, enfrentando desafios e problemas completamente diferentes dos que a moderna civilização gera.

"A principal premissa de trabalho da Psicologia Evolutiva é que a mente humana é uma caixa de ferramentas especializadas de todo tipo (pense em um canivete suíço) que evoluiu por meio da seleção natural para resolver problemas específicos enfrentados por nossos antepassados", escreve Wilkinson. "Funções mentais distintas (por exemplo, percepção, leitura das intenções de outras pessoas, respostas emocionais a parceiros potenciais) são prescritas por diferentes ‘circuitos’ ou ‘módulos’ neurológicos, cada um dos quais pode ser imaginado como um mini programa de computador selecionado sob pressão ambiental para resolver problemas específicos de sobrevivência e reprodução no cenário original da evolução humana." Segundo os psicólogos evolutivos, a mente humana não sofreu grandes mudanças nos últimos 50 mil anos: crânios modernos abrigam mentes da Idade da Pedra.

Qual é a consequência prática dessa constatação? Ela joga por terra a idéia de que a razão é um ente separado e de alguma forma superior aos processos biológicos. A razão humana é o que é por pressões evolutivas, diretamente relacionadas com as necessidades de sobrevivência dos nossos antepassados. Se elas tivessem sido diferentes, provavelmente nosso sistema de raciocínio também seria diferente. Os parâmetros que guiam o funcionamento da mente são produto da vida no Pleistoceno.

E que parâmetros são esses? Segundo Wilkinson, são seis:

1) Somos programados para formar grupos. Nós agimos em pequenos grupos, o que permite que todos os membros se conheçam, e que reputações de confiabilidade ou falta de espírito de equipe sejam rapidamente disseminadas. Tendemos a pensar sempre em termos de “nós” e “eles”, ou seja, quem faz parte do nosso grupo imediato e quem não. Somos tribalistas.

2) Somos feitos para operar em ambientes hierárquicos. Hierarquias são uma forma eficiente de distribuir recursos escassos entre os membros de um grupo sem o uso da violência. Por isso tendemos a disputar as posições no topo (que são sempre escassas), e os que estão na parte baixa tendem a formar alianças para controlar o poder dos que detém status superior, em um processo que o antropologista Cristopher Boehm chama de “hierarquias de dominância reversa”. A democracia é um excelente exemplo.

As hierarquias podem ainda ser de dois tipos: produtivas ou alocativas. As primeiras são alianças entre indivíduos para produzir resultados que com o trabalho separado de cada um deles seriam impossíveis de obter. As segundas existem para transferir recursos para quem está no topo. Uma empresa é um exemplo de hierarquia produtiva, enquanto uma ditadura é alocativa.

3) Nós pensamos em termos de soma-zero, e invejamos quem tem uma parcela maior do bolo. No Pleistoceno, o Homem vivia em um ambiente de soma-zero: os recursos eram terrivelmente limitados e dificilmente aumentavam. Se alguém tinha mais comida, era porque alguém estava passando fome. Isso nos torna muito mal-adaptados para entender os sistemas econômicos contemporâneos, onde a riqueza se multiplica e o bolo cresce continuamente. Algo no nosso âmago nos diz que, se alguém ficou rico, é porque outro alguém ficou pobre. Mesmo que isso não seja verdade.

4) Direito de Propriedade é natural. Existem duas formas de resolver o problema de como dividir recursos escassos: ou criamos hierarquias alocativas que usam de coerção para impor uma certa distribuição, ou aplicamos direitos de propriedade reconhecidos por todos. O direito de propriedade pode ser encontrado na natureza na forma como animais demarcam territórios para seu uso exclusivo na busca de comida e para procriação. Esse sistema minimiza conflitos e violência. A evidência científica parece corroborar a idéia de que o direito de propriedade é algo institivo, natural, não criado por uma mera canetada legislativa.

5) Trocas voluntárias são naturais. Estudos arqueológicos indicam que a sociedade do Pleistoceno não era nenhuma utopia socialista de propriedade coletiva; era sustentada por processos complexos de trocas comerciais e divisão rudimentar do trabalho. Mais impressionante ainda, outros estudos mostram que conseguimos resolver problemas lógicos complexos relacionados à reciprocidade, análise de custos e benefícios, e detecção de fraude em acordos; mas quando defrontados com problemas de complexidade similar em outros campos, nossa performance é bem inferior. Isso parece indicar que existem funções cognitivas especialmente desenvolvidas para lidar com trocas sociais. A mente humana é construída para o comércio.

6) Somos construídos para interações face-a-face. A sociedade do Pleistoceno era baseada nas relações diretas entre pessoas que se conheciam e confiavam umas nas outras. A transição dessa sociedade de transação face-a-face para a civilização impessoal, em que realizamos trocas com desconhecidos como se fossem velhos amigos dignos de confiança, exigiu um salto cultural imenso. F.A. Hayek, Prêmio Nobel de economia de 1974, resumiu o problema da seguinte forma: vivemos em dois mundos, o "micro-cosmos" dos amigos e família, e o "macro-cosmos" das relações impessoais e institucionais. Para que a nossa civilização funcione, precisamos de mecanismos que mantenham os dois separados, sob o risco de que um destrua o outro. A história da civilização é a história do desenvolvimento desses mecanismos de relacionamento impessoal e de separação entre o micro- e o macro-cosmos sociais.
A Psicologia Evolutiva nos ensina algo importante: existe sim uma natureza humana que, para todos os efeitos, é imutável. Nós não somos robozinhos programados pelo ambiente social em que vivemos, nem é possível construir uma ordem social eficiente e duradoura que não ofereça espaço para que essas características inatas possam ser extravazadas de forma positiva. Suprimi-las não funciona; o exemplo do socialismo deixa isso muito claro. Ele elimina a propriedade, bloqueia a formação de hierarquias de dominância reversa, usa de hierarquias alocativas para definir a distribuição dos recursos, destrói as chances de trocas e estimula o tribalismo agressivo. Ou seja, uma catástrofe. Não é à toa que nunca deu certo em lugar algum do mundo.

As sociedades livres orientadas para o mercado não são de forma alguma perfeitas (nada que o Homem cria é), mas são a melhor resposta que encontramos até hoje para lidar com a natureza humana. Elas protegem a propriedade e estimulam as hierarquias produtivas e as trocas; canalizam o tribalismo e a mentalidade de soma-zero para o campo de batalha do livre mercado, onde eles podem manifestar-se de forma não-violenta; e criam instituições que permitem a formação de hierarquias de dominância reversa e a oferta de amplas oportunidades de status e ascenção hierárquica. Isso não quer dizer, de forma alguma, que o capitalismo é “natural”; natural seria que andássemos pelados pelas savanas caçando e comendo frutinhas. Nem quer dizer que não podemos (ou não devemos) aspirar por modelos sociais mais eficientes, ou que a organização social que temos hoje é a única possível. Mas a Psicologia Evolutiva nos mostra que existe algo que nós definitivamente não devemos fazer: seguir o caminho do totalitarismo.

1 Comments:

At sábado, outubro 27, 2007 10:31:00 AM, Anonymous Anônimo said...

esse trabalho nos mostrou a ser mais responsavel o ambiente para nossa vida social particulamente com as coisas ambientais o nosso ambiente nao vai morre vamos ajuda a nossa naturea ok.

 

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