sexta-feira, março 25, 2005

Um Liberal não é um Conservador

Recentemente surgiu um debate, que parece ganhar momentum dentro da Direita internauta brasileira, a respeito da muitas vezes complexa aliança entre os “liberais” e os “conservadores”. Exemplos disso são os artigos “Porque a Esquerda Merece Governar“, do professor Cláudio Shikida; recente texto de Felipe Svaluto no blog “Warfare State”; e o recém-lançado blog “Os Progressistas”, que até o momento tem dedicado-se quase que exclusivamente a esse tema. Esse debate de certa maneira segue os padrões da disputa entre “libertarians” e “conservatives” nos EUA, com a diferença de que no Brasil ambos os grupos são politicamente inexpressivos e numericamente reduzidos.

Mas isso não é desculpa para que o tema não seja discutido. A proposta do “Livre Pensamento” é debater a filosofia liberal, e sua distinção do pensamento conservador é tão importante quanto o seu conflito com a Esquerda.

À primeira vista, pode ser difícil distinguir um conservador de um liberal, principalmente se o tema em discussão for economia. Via de regra os conservadores concordam com os liberais nos temas de livre mercado, combate à intervenção estatal na economia, defesa da propriedade privada, etc. Neste aspecto temos um coro coeso e afinado, que usa dos mesmos argumentos para lutar contra o estatismo.

O quadro muda quando entramos no campo dos costumes e da moral. Aqui existe um abismo imenso entre conservadores e liberais, que ouso dizer é tão grande quanto o que existe entre liberais e socialistas no campo econômico. Curiosamente, aqui os liberais afinam-se mais com alguns dos seus inimigos da Esquerda do que com seus tradicionais aliados na Direita. Mas, como demonstrarei adiante, esse abismo não consiste na defesa per se de valores morais tradicionais, como muitos podem supor, mas sim de uma profunda diferença de visão sobre qual é o papel do Estado nessa área.

Hayek expressa da seguinte forma a diferença entre liberais e conservadores (tradução minha): “(O) conservadorismo propriamente dito é um atitude legítima, provavelmente necessária, e certamente bastante disseminada, de oposição à mudança drástica. (...) Até o surgimento do socialismo, seu oposto era o liberalismo. (...) Permitam-me agora colocar qual é, para mim, a objeção definitiva a qualquer conservadorismo que mereça ser assim chamado. Ele é, por sua própria natureza, incapaz de oferecer um alternativa à direção em que estamos nos movendo. Ele pode ser bem-sucedido em sua resistência às tendências atuais, reduzindo a velocidade de certos desenvolvimentos indesejáveis, mas, como não indica nenhuma outra direção, não pode impedir sua continuidade.(...) O que o liberal deve perguntar, antes de qualquer outra coisa, não é quão rápido ou quão longe devemos ir, mas em que sentido devemos nos mover. Em realidade, (o liberal) difere muito mais do radical coletivista do que o conservador. Enquanto este último geralmente retém apenas uma versão mais diluída e moderada dos preconceitos do seu tempo, o liberal de hoje precisa de forma muito mais afirmativa opor-se a algumas concepções que muitos conservadores partilham com os socialistas.”

Hayek ainda diz o seguinte a respeito da aliança entre liberais e conservadores: “Como os desenvolvimentos das últimas décadas têm seguido geralmente na direção do socialismo, pode parecer que tanto liberais quanto conservadores têm como objetivo principal retardar tal movimento. Mas o ponto principal do liberalismo é que ele deseja ir em outra direção, não ficar no mesmo lugar. Embora hoje impressão contrária possa ser causada pelo fato de que houve um tempo em que o liberalismo era mais aceito, e alguns dos seus objetivos estavam mais próximos de serem atingidos, ele jamais foi uma doutrina saudosista. Nunca houve um tempo em que os ideais liberais foram completamente realizados, quando o liberalismo não olhava adiante em busca de melhorias adicionais das instituições. O liberalismo não é averso à evolução e a mudança; e onde as mudanças expontâneas são sufocadas pelo controle governamental, ele deseja mudanças significativas na política.”

Acerca das opiniões de Ludwig von Mises sobre uma variedade de temas, Murray Rothbard concluiu o seguinte (tradução minha): “Nós encontramos então um Mises com as seguintes, e fortes, convicções políticas: um pacifista declarado, que abertamente atacava a guerra e o nacionalismo chauvinista; um crítico amargo do colonialismo e imperialismo ocidentais; um seguidor da política de não-intervenção na Rússia Soviética; um determinado defensor da auto-determinação dos povos, não apenas para grupos nacionais, mas para subgrupos tão pequenos quanto uma vila – e em teoria, pelo menos, até o limite da secessão individual, o que chega próximo do anarquismo; alguém tão hostil a restrições à imigração que quase chega ao ponto de endossar a guerra contra países como os Estados Unidos e a Austrália para forçá-los a abrirem suas fronteiras; alguém que acreditava no conflito de classes em relação ao Estado; um crítico racionalista e cáustico do Cristianismo e de todas as religiões; e um admirador da Revolução Francesa.” Um pouco demais para os gostos de um conservador, acredito eu...

Mas aqui é necessário fazer uma importante distinção. Um liberal não é necessariamente, do ponto de vista cultural e moral, um iconoclasta ou um reformista; não podemos esquecer que John Locke, indubitávelmente um dos mais importantes pensadores liberais de todos os tempos, era também profundamente religioso e tradicionalista em assuntos de moral e costumes. Embora Rothbard tenha demonstrado que von Mises era um “radical político”, Lew Rockwell e Jeffrey A. Tucker também revelam que ele poderia ser considerado um “reacionário” na área da moral, com fortes posições contra a igualdade dos sexos e a favor do casamento (embora não fosse contra o sexo fora dele), proponente de que diferentes etnias são diferentes e não podem ser consideradas “iguais” (embora refutasse qualquer idéia de “raça pura” e condenasse qualquer tipo de política estatal baseada em etnia), e crítico feroz da idéia de que todas as culturas são igualmente importantes ou dignas de respeito (e via o Eurocentrismo como positivo). Confuso, não? Se aceitamos que von Mises era um liberal, e simultaneamente, um “conservador” na área moral, como podemos dizer que conservadores são aqueles que seguem valores morais tradicionais ou mesmo “reacionários”? Como diferenciar um do outro?

A resposta parece ser quais princípios cada grupo considera prioritários.

Para um liberal, o princípio da liberdade tem precedência sobre todos os outros. Um liberal pode ser, pessoalmente, profundamente contrário ao consumo de drogas; no entanto, por prezar o princípio da liberdade e considerá-lo superior, não aceita em hipótese alguma a idéia de que o Estado deva proibir as pessoas de comprarem e consumirem o que bem entenderem. Um liberal pode ser um católico fervoroso, mas pode ser também contra o ensino religioso nas escolas por considerá-lo uma violação da liberdade de crença daqueles que não partilham da sua religião. Um liberal pode considerar o homossexualismo uma aberração da natureza, mas jamais aceitará que a relação íntima entre duas pessoas seja tratada como assunto de Estado.

Já um conservador acredita que os princípios morais que defende têm primazia sobre quaisquer outros. Assim, a liberdade das pessoas pode ser sacrificada em nome do que é “certo” ou “moral”. Por isso um conservador é também, a priori, um estatista, pois embora oponha-se ao esquerdismo que promove usos do Estado que ele pessoalmente considera abjetos, não vê nada de errado em um intervencionismo similar a favor das crenças que professa. E ao fazê-lo, o conservador cai na mesma armadilha do relativismo moral que marca o pensamento socialista. Assim como o Socialismo, o Conservadorismo não tem entre os seus princípios fundamentais aquilo que é a essência do pensamento liberal: a aceitação das diferenças e da pluralidade como elementos fundamentais de uma civilização progressista e justa. É um comportamento saudosista, que busca de alguma forma restaurar os tempos áureos em que “a moral e os bons custumes” imperavam, e que considera os avanços e mudanças sociais como exemplos de “decadência moral”.

Mas essa crítica ao Conservadorismo não invalida o seu papel. Enquanto os conservadores seguirem os princípios do jogo sócio-político liberal – ou seja, lutarem pelas suas idéias dentro das normas do respeito aos direitos individuais, à liberdade e a Lei – sua influência é legítima e até positiva. Afinal, às vezes realmente precisamos que alguém denuncie os excessos e os sonhos delirantes, que nos convoque de volta à realidade e mostre que nossa arrogância nos cega. Só quando esse comportamento ultrapassa esses limites ele passa a ser uma ameaça à liberdade.

Então, vemos que é necessário um certo cuidado com a definição de “liberal“ e “conservador”. Não são as crenças específicas que cada um possui em temas de moral e costumes que definem em qual campo uma pessoa está, mas sim os métodos que ela considera legítimos para defendê-las. Um liberal e um conservador podem pensar rigorosamente da mesma maneira a respeito de moral, mas seguirão caminhos diferentes para defender suas idéias.

13 Comments:

At sexta-feira, março 25, 2005 1:24:00 PM, Blogger Felipe Svaluto said...

Olá Luiz. Belo artigo, didático e claro como sempre. E pensar que é preciso tão pouco para desfazer confusões que alguns parecem fazer questão de verem cultivadas. Obrigado também pelas visitas e constantes comentários em Os Progressistas. Abraço.

 
At sexta-feira, março 25, 2005 1:24:00 PM, Blogger Felipe Svaluto said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

 
At sexta-feira, março 25, 2005 1:32:00 PM, Blogger Claudio said...

O professor Claudio D. Shikida, mais conhecido como Claudio Shikida está aqui. risos.

O texto tem um ou outro escorregãozinho em português, mas Simi tá na Alemanha, o que é perdoável, perfeitamente perdoável.

Em geral, acho que a diferença entre liberais e conservadores fica mesmo na imposição de valores morais (ou pelo menos em um barulho maior que conservadores fazem por causa disto) do que liberais. Aquilo que, no texto, você cita em algum momento.

Não é que liberais não tenham moral. Trata-se apenas de que a liberdade talvez seja nosso único valor moral (posso estar falando um absurdo aqui).

Bem, ponto delicado que eu tenho o prazer de debater. E acho que o Simi está indo no caminho certo. É hora do pensamento brasileiro ganhar sua vertente liberal não-conservadora. Até porque, ora bolas, um pouco de competição faz bem. :-)

 
At sexta-feira, março 25, 2005 4:36:00 PM, Blogger Luiz Simi said...

Luiz Aqui. Meus textos provavelmente continuarao com erros de português, por duas razoes:

1) Eu escrevo muito rápido e raramente faço mais do que uma revisao bem "por cima";

2) Meu processador de texto é em alemao... :-(

 
At sexta-feira, março 25, 2005 4:50:00 PM, Blogger Luiz Simi said...

Fiz algumas mudanças cosméticas no texto, mas nada importante em termos conceituais ou de exposiçao.

 
At sábado, março 26, 2005 1:45:00 PM, Blogger Claudio said...

é um processaschwartzdor. :-)

 
At quarta-feira, março 30, 2005 1:03:00 PM, Blogger Luís Afonso said...

Luiz:
Como liberal e conservador algumas críticas.
Pensar que a liberdade é o único valor moral onde fica a liberdade de ser "amoral"?
A visão conservadora não é de "bons costumes" mas a certeza, cada vez mais aprofundada com o conhecimento, que a real dimensão humana está definida fora dos limites da própria humanidade. Recebemos o mundo pronto e até um corpo. Mas não nos pertencem (fizemos uma espécie de leasing com Deus) então não podemos explicar todo universo com base nesta visão humana. Outra certeza é de que no eixo homem-ciência-deus-sociedade só funciona com o equilíbrio equidistante entre as partes.
O estado para os conservadores deve desempenhar este papel mediador, pois deve cumprir leis que devem ser baseados nesta premissa.Aqui os conservadores e socialistas são radicalmente diferentes: o socialistas quere usar a estrutura do estado para acabar com o conceito de sociedade, em último caso. Tudo devidamente vendido como "avanço" e aplaudido pelos "libertarians".
Como o próprio Olavo dizia, no império do mercado se a teoria socialistas tiver demanda, ela deverá ser atendida, mesmo que signifique o fim do próprio mercado. Este é o paradoxo.
Resumo: conservadores não buscam o passado, buscam a verdade, com a visão de que ela não é imutável ou sujeita a progressos. O ser humano é o mesmo há milênios e o será ainda por milênios. A essência humana é conservadora por natureza. O progresso avança, mas em tese só aumenta o número de ligações entre as pessoas na sociedade, não a sua essência.
Podem me chamar de New-Victorian... ehehe

 
At quarta-feira, março 30, 2005 3:29:00 PM, Blogger Luiz Simi said...

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At quarta-feira, março 30, 2005 3:31:00 PM, Blogger Luiz Simi said...

Luís Afonso,

interessantes as suas colocações. Mas acho que não estamos falando da mesma criatura quando falamos de conservador.

Na minha visão, o que você define como conservador não é conservador, mas apenas liberal. Dentro do pensamento liberal existe espaço para ampla variação, como (imagino) deixei claro com meu exemplo sobre von Mises.

O meu objetivo neste artigo (aparentemente não-alcançado, heheheh) era justamente desmistificar uma visão que considero alarmante: a de que qualquer um que professe princípios moral-religiosos arraigados ou "tradicionais" é automaticamente "conservador", e portanto, não-liberal. Meu objetivo era justamente mostrar que isso não é verdade.

A defesa do papel do Estado enquanto moderador do processo de avanço é discutível, ao meu ver, mas não necessariamente incompatível com o pensamento liberal. O que é incompatível com ele é o uso do poder do Estado para impor UMA moral específica a todos, sem que a liberdade de ser "amoral", como você colocou, seja respeitada. Quando isso ocorre, os conservadores e os socialistas misturam-se.

Confesso que considero o paradoxo que o Olavo apresenta falso. Ser um liberal não-conservador não consiste em reduzir a sociedade a um mero "mega-mercado", nem assumir que o mercado será a ÚNICA forma de organização das necessidades da sociedade: isso é an-cap, que para mim é tão utópico quanto o socialismo. E mesmo assumindo que assim fosse, a própria argumentação "conservadora" leva à idéia de que algo só terá "demanda" se for de alguma forma compatível com a natureza humana imutável. Sabemos que os regimes socialistas nunca chegaram ao poder por demanda popular, mas pela manipulação bem-urdida de valores tradicionais e controle das massas pela "vanguarda"; logo, assumir que os mecanismos de mercado pudessem levar a sua própria extinção me parece ignorar a dinâmica do processo revolucionário que é necessário para a ascenção do socialismo. Uma situação desse tipo, mesmo que possível, estaria fadada a desaparecer. Não é sustentável a longo prazo.

Não poderia jamais chamar você de "New-Victorian". Seria fazer o jogo dos rótulos que acho que os liberais não devem fazer.

 
At quarta-feira, março 30, 2005 5:00:00 PM, Blogger Luís Afonso said...

Luiz:

Quando se define o estado como o guardião do "Rule of Law" ele não é per si o moderador? Pois se baseia no conceito de que a estrutura das leis é muito mais antiga do que o estado criado para defendê-la. Esta é a característica do modelo americano. Então acho correto afirmar que sendo responsável em defender a constituição e as leis o estado é um poder moderador sim.
É claro que isso pré-define um ambiente jurídico-constitucional mais ou menos constante ou sem mudanças abruptas. Geralmente estes conceitos/regras provêm de muito antes de sua promulgação, através da própria tradição oral ou religiosa de uma sociedade.
A sua visão conservadora, confesso que não pude apreender no todo. Para mim não há dissenso entre conservadorismo e liberalismo: são campos de de interesse completamente distintos. São aspectos da realidade que se complementam. Assim como o mercado é uma realidade, assim é o ser humano e suas relações. Estabelecer o que é real em cada um destes ambientes sem tentar o idealismo barato de tentar "transformá-lo" é a tarefa de decifrar os signos de uma pretensa "evolução" real da sociedade ou apenas expressão de vontade de transformar o ser humano em qualquer outra coisa....
Espero ter sido bem entendido agora...
Abs,

 
At quarta-feira, março 30, 2005 7:40:00 PM, Blogger Renato C. Drumond said...

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At quarta-feira, março 30, 2005 7:42:00 PM, Blogger Renato C. Drumond said...

"no império do mercado se a teoria socialista tiver demanda, ela deverá ser atendida, mesmo que signifique o fim do próprio mercado. Este é o paradoxo."

Não, no "império" do mercado as pessoas optariam em viver numa sociedade socialista, ou seja, seria uma ação voluntária, que poderia ser desfeita a qualquer momento. O problema é confundir democracia com o que eu chamo de associacionismo, que seria um regime político fundado absolutamente em bases contratuais e voluntárias. A democracia moderna não é fundada em contrato, visto que ninguém assinou contrato algum que autorizasse que a vontade da maioria prevalecesse sobre a vontade da minoria. Constituição é muito mais uma tentativa de limitar a ação do governante do que propriamente a fundação ou legitimização do poder político.

A democracia liberal não é de forma alguma uma democracia plena. O foco de ação do governante(se existir algum) é absolutamente limitado por leis baseadas no direito natural. O que o "povo" pode decidir é muito pouco e não deve de forma alguma tratar dessas questões. Por isso muitas vezes a acusação de elitismo.

Não digo aqui se a democracia é boa ou ruim, não é disso que trato. Apenas queria ressaltar que não existe, na concepção liberal, essa idéia de "obrigatoriedade" do socialismo se o mesmo chegar ao poder através das eleições.

 
At quinta-feira, março 31, 2005 7:13:00 PM, Blogger Zé Knust said...

"Aqui os conservadores e socialistas são radicalmente diferentes: o socialistas quere usar a estrutura do estado para acabar com o conceito de sociedade, em último caso. Tudo devidamente vendido como "avanço" e aplaudido pelos "libertarians"."

E comer criancinhas também.

 

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