sábado, abril 30, 2005

A Cidade Resplandecente na Colina

Não cessarei minha luta mental
Nem minha espada dormirá em minha mão
Enquanto não tivermos eregido Jerusalém
No solo verde e viçoso bretão

(...)
Veja as torres resplandescentes da cidadela
O rei e a rainha viverão em nossos corações
Pode Jerusalém ser aqui reerguida, bela
Nestes tempos triviais, nesta terra do medo?
Em Jerusalém, onde o graal sob guarda está
Caminhe para a luz e dissolva os grilhões
Jerusalém


Bruce Dickinson, “Jerusalem”, baseado em poema de Samuel Taylor Colledge. Tradução minha (1)

A vida de um liberal, especialmente na América Latina, não é das mais fáceis. Nos degladiamos quase que diariamente com um consenso ideológico que é inimigo da liberdade individual, com idéias que deveriam estar no cemitério das catástrofes intelectuais mas que continuam vivas e saltitantes no nosso canto perdido do planeta. É muito fácil desanimar. Mais fácil ainda é cair na amargura niilista da crítica destrutiva, que freqüentemente leva à paranóia e a percepção exagerada do poder e influência dos inimigos da liberdade. Muitos liberais sentem-se no pior dos mundos: não podem mais voltar atrás, para a época em que conseguiam engolir o engodo coletivista sem muita dificuldade, pois sua honestidade intelectual não permite “esquecer” o que descobriram; mas agora encontram-se no lado aparentemente mais fraco de uma batalha em que as perpectivas de vitória são tão remotas quanto a mais distante das estrelas.

Liberais são seres humanos também. E por isso não é surpreendente que muitos, mesmo tendo as idéias corretas, acabam tendo a leitura errada da realidade. A batalha não está perdida, muito pelo contrário; ela já dura mais de trezentos anos, e o Liberalismo está longe de ser derrotado.

Não me entendam mal: não tenho a menor dúvida de que as forças alinhavadas contra a liberdade são poderosas e pervasivas, e possuem imensos recursos à sua disposição. Também não ignoro que poucos desafiam abertamente o consenso liberticida, coletivista, anti-individualismo que impera, bradando corajosamente as idéias liberais. E é bastante óbvio que uma parcela considerável das pessoas entregaria alegremente sua liberdade em troca de uma escravidão que inclua três refeições diárias, um teto sobre suas cabeças e alguma aparência de segurança; alguns até se contentam com muito menos do que isso.

Mas aqueles que se deixam abater pelo prospecto da luta titânica que temos adiante de nós padecem de falta de perspectiva. Sob muitos aspectos, a situação que enfrentamos hoje é consequência direta do sucesso, e não do fracasso, das idéias liberais; são o resultado do Liberalismo ter conseguido mudar o mundo de forma mais profunda, ampla e rápida do que qualquer outro conjunto de idéias em toda a história da espécie humana. Somos vítimas do sucesso da doutrina que defendemos.

Sim, sucesso. A partir da Revolução Gloriosa na Inglaterra, no século XVII, o mundo civilizado foi literalmente varrido pelas poderosas forças da liberdade. Do sonho liberal nasceram os EUA, uma experiência revolucionária e extremamente bem-sucedida de democracia, liberdade individual, livre mercado e tolerância. O Absolutismo, mesmo com idas e vindas, tombou diante da fúria dos defensores da liberdade. E no embate entre os valores liberais e os totalitarismos nazista, fascista e comunista, o ideal da liberdade prevalesceu.

Até mesmo a América Latina, refratária como é a qualquer idéia que seja contrária aos privilégios, mercantilismo, estatismo e arbítrio que marcam a região desde os tempos coloniais, não escapou ilesa dos ventos da liberdade; a verdadeira Revolução Bolivariana (a de Simon Bolívar) foi a primeira tentativa de estabelecer o Império da Lei por estas bandas, e o Constitucionalismo, mesmo que aos poucos e de forma imperfeita, tornou-se elemento importante da cultura abaixo do Rio Grande. Mesmo o Brasil, com suas incríveis falhas e colossais dificuldades, só conseguiu desenvolver-se porque foi, de todos os países da América do Sul, o que consistentemente manteve as instituições menos instáveis e o maior respeito pelos direitos individuais. E para quem pensa que o ideal liberal jamais foi defendido de verdade no Brasil, lembro os milhares de paulistas que morreram na Revolução de 32 lutando não por poder, glória ou utopias sanguinárias, mas pelo direito de todos os brasileiros de serem governados por uma Constituição. Mesmo que jamais apresentado de forma coerente e sob esse nome, o ideal liberal é parte importante (embora infelizmente não dominante) da formação da cultura moderna latino-americana.

Tamanho foi o sucesso do ideal liberal que seus inimigos não tiveram opção além de tentar apoderar-se dele e subvertê-lo. Então temos a esquerda americana se auto-intitulando “liberal”; o conceitos marxistas de “liberdade” e “justiça” mascarando a escravidão; a subversão dos direitos humanos para justificar atrocidades; e outros tantos absurdos. Mas isso só acontece porque o Liberalismo foi de tal forma devastador na sua ofensiva sobre o Velho Regime, sua luz é de tal maneira cegante para os seus inimigos, que pregar abertamente a submissão de uns pelos outros ou a abolição da liberdade individual tornou-se impossível. Quem pode hoje, como Sir Robert Filmer no século XVII, defender que os homens nascem escravos naturalmente, e que o governo absoluto, sem restrição ou controle, é a forma legítima de governo da Humanidade? Vemos os inimigos da liberdade usando da deturpação dos conceitos liberais porque são eles que servem de parâmetro para julgar se algo é “bom” ou “mau”. O Liberalismo é a doutrina mais atacada do planeta porque é também a mais bem-sucedida de todos os tempos.

Tão poderoso é o ideal liberal que ele sobreviveu a duzentos anos de ataques continuados sem desaparecer. Na realidade, o poder transformador da liberdade só começou a modificar o mundo de verdade um bom tempo depois que os seus primeiros, heróicos defensores já haviam baixado as armas; foi durante o século XX, o período da história humana em que a liberdade enfrentou suas maiores ameaças, que não apenas a democracia tornou-se o parâmetro de como governos deveriam ser constituídos, mas o capitalismo alcançou um desenvolvimento sem paralelos, permitindo que a população humana quintuplicasse e bilhões fossem retirados da pobreza, mesmo com o fardo de duas guerras mundiais e as catástrofes socialistas e social-democratas. Até nos mais distantes grotões da Terra, a influência pervasiva da cultura da liberdade pode ser sentida, mesmo quando continuamente atacada, deturpada, difamada e corrompida.

Mas se o Liberalismo foi tão bem-sucedido, pode-se perguntar, então o que deu errado?

A resposta é que, com seu sucesso na sua luta contra a tirania e transformação no paradigma ético, moral e econômico do Ocidente, o Liberalismo deixou de ser uma idéia “revolucionária”. Os liberais se viram mudando de lado, de inimigos do status quo para seus defensores. Não lutamos mais para instaurar os ideiais liberais no mundo, mas para preservá-los, expandi-los e aperfeiçoá-los. A ofensiva ficou com os inimigos da liberdade. E nós, liberais modernos, falhamos em perceber o que perdemos nesse processo.

Quando surgiu, o Liberalismo não contava com ampla aceitação acadêmica ou intelectual, nem tinha como bagagem três séculos de sucesso. O que o fez ser bem-sucedido então, diante dos inimigos poderosíssimos que enfrentava, dotados de recursos imensos e amplo suporte da intelectualidade da época? O Liberalismo propunha uma visão, um mundo diferente, uma ousada luta por algo com que todas as pessoas, dos mais ricos aristocratas aos mais pobres camponeses, podiam se identificar: a liberdade. O ideal da liberdade ateou fogo na imaginação de gerações, uma inspiração tão poderosa que milhões de homens e mulheres dedicaram suas vidas a tornar o sonho uma realidade. As pessoas podiam não entender os complexos argumentos, a retórica rebuscada dos pensadores liberais; mas entendiam claramente a alma do seu discurso. Elas conseguiam visualizar, em suas mentes, a cidade resplandecente na colina, as torres fulgurantes da cidadela da liberdade. Podemos realmente imaginar que os liberais do séculos XVII, XVIII e XIX tinham diante de si uma luta mais fácil do que a nossa? É óbvio que não.

Mas ao passar de revolucionários para conservadores, os liberais perderam de vista a alma do Liberalismo, dando aos socialistas a chance prover uma para a imaginação popular. A utopia socialista tomou as mentes e corações humanos, porque o ideal liberal ficou dormente.

É isso que precisamos entender. Não existe dúvida de que a liberdade é a melhor condição para a vida humana; mas não vamos provar isso apenas refutando os inimigos da liberdade. Temos trezentos anos de estudos, experiência, e evidência empírica para comprovar que o Liberalismo é a forma mais adequada de organização da sociedade; mas perdidos nesse mar de dados e fatos, nos esqueçemos de que não basta viver, mas é necessário viver por alguma coisa. Se os fatos sustentam nossas convicções, o que falta é prover a visão. Precisamos redescobrir a cidade resplandecente na colina, e transmitir essa visão às pessoas. E podemos fazê-lo sem temer ser tachados de utópicos; afinal, ao contrário dos nossos inimigos, nós temos o que mostrar ao mundo como resultado das nossas idéias em ação.

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Notas:

(1) texto original:

“I shall not cease from mental fight
Nor shall my sword sleep in my hand
Till we have built Jerusalem
In England’s green and pleasant land”
(...)
“See the gleaming spires of the citadel
The King and Queen will dwell in our hearts
Can Jerusalem be rebuilt here
In this trivial time, in this land of fear?
In Jerusalem, where the grail remains
Walk into the light and dissolve the chains
Jerusalem.”

1 Comments:

At domingo, maio 01, 2005 1:32:00 AM, Anonymous Thiago Bandeira said...

Caro Luiz Simi. Já venho acompanhando seu blog a um bom tempo. Seus artigos são excelentes e concordo plenamente com o que até agora foi abordado. Nunca escrevi aqui, mas hoje decidi, até para mostrar a minha surpresa por ver um texto de Bruce Dickinson, vocalista da maior banda do mundo e minha preferida, diga-se de passagem. Como você mesmo deve saber ele é formado em história. Mas deixamos isso de lado. O importante mesmo são seus comentários. e quem acha que o Liberalismo está morto, usarei um clichê : "long live for the liberalism".
Valeu. Forte abraço.

P.S: tomei a liberdade de lhe adicionar ao meu orkut. até.

 

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