sábado, maio 07, 2005

Eduardo Levy e o Neoliberalismo

Acompanho o blog “Pregando no Deserto”, mantido pelo Eduardo Levy, com muito interesse. Sob muitos aspectos, vejo no a mim mesmo, dez anos atrás, refletido no Eduardo, embora jamais tenha sofrido do pessimismo crônico de que o nosso jovem colega parece sofrer. Mas as dúvidas, dificuldades e preocupações do Eduardo, somados ao seu óbvio esforço em aprender e ao mesmo tempo passar adiante o que descobre sobre o pensamento liberal, certamente têm ressonância com a minha própria trajetória. Com a diferença de que, se eu tivesse a lucidez de idéias que o Eduardo tem quando eu tinha a idade que ele tem hoje, minha vida teria sido muito mais fácil e não teria perdido tanto tempo com tantas bobagens.

Recentemente, o Eduardo escreveu um artigo sobre um tema que eu desejava há muito abordar: esse ente amorfo que responde pelo nome “neo-liberalismo”. Eu costumo dizer que “neo-liberalismo” é o nome que os socialistas dão a qualquer coisa que não seja abertamente marxista. Então, dentro dessa lógica, social-democratas emperdenidos como FHC ou Helmut Kohl, socialistas convictos como Lula ou Felipe Gonzalez, liberais autênticos como Margareth Thatcher, ou estatistas travestidos de liberais como Fernando Collor, são todos classificados como “neo-liberais”. Desnecessário dizer que um termo que é usado para designar tão ampla gama de posicionamentos ideológicos e políticas públicas não pode, na verdade, significar coisa alguma. “Neo-liberalismo” é um palavrão que não tem, nunca teve, e nunca terá significado real.

Embora carregue um pouco nas tintas, o Eduardo escreveu o artigo que eu queria redigir. Sugiro a leitura do seu artigo “O Neoliberalismo”. Alguns pontos marcantes:

“Depois de ler, em um grupo de discussão da revista IstoÉ Dinheiro , uma “pessoa”* afirmando que o nazismo era neoliberal, cheguei à conclusão de que neoliberalismo significa, literalmente, “toda e qualquer coisa que, no conceito das pessoas de esquerda (não se pode mais falar ‘comunistas’**), é ruim”.

“Inventaram o inimigo único responsável por todos os males do mundo, como já ensinaram milhares de cartilhas de manipulação de massas e dominação política, e chamaram-no neoliberalismo, para que o eleitor incauto associe qualquer tipo de liberalismo ao demônio, causador do mal no mundo. Isso, para que não corra nenhum risco de um governo liberal tirar todos os privilégios de sindicalistas vagabundos que vivem de explorar o trabalhador, demitir funcionários públicos que não trabalham e ganham fortunas, e a população deixar de ser pobre e ignorante e parar de votar em idiotas como eles.”

Quem melhor definiu o neoliberalismo foi Hugo Chávez, comparando as “lutas” da esquerda contra o neoliberalismo às lutas de Dom Quixote, aquele que lutava contra inimigos imaginários.

*Chama-se “pessoa” qualquer individuo que pertença à espécie Homo Sapiens Sapiens, que significa “homem que sabe que sabe”. Um ser que afirma que o nazismo foi neoliberal não sabe nem que sabe, porque de fato, não sabe. Portanto, vai entre aspas.

Hehehe. Acho que o Eduardo acertou em cheio no ponto com seu artigo. Só faço dois comentários.

Primeiro, não é verdade que a Esquerda arremete contra inimigos imaginários. A parcela da Esquerda que se dedica a tentar subverter a democracia e destruir o capitalismo capenga que existe no Brasil e na América Latina tem um alvo bem real e definido: a liberdade. Embora “neo-liberalismo” seja um palavrão desprovido de sentido, o alvo que eles pretendem atingir ao usá-lo é muito claro. Não podemos em momento algum subestimar a capacidade dos inimigos da liberdade.

Segundo, devemos observar que o palavrão “neo-liberal” tende a ser usado contra os discursos de liberdade econômica. Como a inspiração real de sujeitos como Hugo Chávez, o campo majoritário do PT e outros grupelhos que ambicionam o poder absoluto é, na realidade, o Fascismo italiano (que subverteu a democracia para implantar um regime totalitário), eles oferecem juras de amor à liberdade política, ao pluralismo e à ética, e argumentam que sua “luta” é contra o “liberalismo econômico” apenas. Essa armadilha deve ser sempre denunciada e desarmada. Liberdade econômica e liberdade política são baseadas nos mesmos princípios éticos e filosóficos, e não podemos deixar que sejam separados nunca. Rebater o “neo-liberalismo” apenas no campo econômico, embora possível (como demonstrou o Eduardo), é insuficiente. Devemos sempre reforçar o laço inalienável que existe entre as liberdades política e econômica, e como a ausência de uma leva inevitávelmente à morte da outra. Só assim o discurso coletivista pode ser rechaçado em sua totalidade.

Meus parabéns ao Eduardo Levy pelo artigo, e reforço minha recomendação: visitem o “Pregando no Deserto”. Vale a pena.

4 Comments:

At sábado, maio 07, 2005 6:44:00 PM, Blogger Eduardo Levy said...

Brigadão por tudo, Luiz. A divulgação do texto, a identificação,os comentários no meu blog...
E desculpe por ter "roubado" sua idéia hehe.
Abração!

 
At terça-feira, maio 10, 2005 8:19:00 AM, Anonymous Fabiana said...

Olá Luiz,

Garanto a vc que o neoliberalismo é um paradoxo por definição. Não passa do liberalismo (que vc tanto defende) travestido de "regulador", para detenção de poder sobre as 'brechas' provenientes da extrapolação dos princípios liberais.
Afinal, não há poder sem controle, não é? O favorecimento à natureza humana causa desequilíbrio. Toda doutrina objetiva o poder por fundamento (afinal, o que é enunciar Verdades Absolutas?). Então, o neoliberalismo parece ser a solução (para os liberais!). Ou não?

Abraços

 
At quinta-feira, maio 12, 2005 8:03:00 AM, Blogger Luiz Simi said...

Fabiana,

O que costuma ser chamado de "neo-liberalismo" nao tem a mais remota conexao com o liberalismo. Isso é puro embuste intelectual.

O liberalismo nao é uma doutrina, mas uma escola de pensamento. Como tal, ela nao objetiva tomar o poder; nao existe "plano de poder" liberal. O que existe é uma visao de sociedade, em que estao inseridos a igualdade perante a lei, leis impessoais e gerais, a ausência de coercao desnecessária por parte do Estado, o direitos fundamentais do ser humano (vida, liberdade, propriedade, busca da felicidade) e livre mercado (que nada mais é do que a extensao desses conceitos ao plano econômico).

Tampouco o liberalismo enuncia "verdades absolutas". O que o liberalismo faz é observar que existem elementos do comportamento humano que podem ser empiricamente observados em todas as culturas, todos os povos, em todos os tempos. Interesse próprio, preferência pelas trocas voluntárias, e o desejo de viver em paz e liberdade sao universais. De onde eles vem, ou porque eles existem, é menos importante do que o fato de que eles existem. E com base nesses fatos (e em outros, como o de que sempre existe gente querendo passar a perna nos outros), o liberalismo apenas indica que elementos precisam estar presentes em uma sociedade para que a maior parte das pessoas que dela fazem parte possam viver em paz, liberdade e conforto material. Mas o liberalismo nao diz como esses elementos devem ser implementados; isso varia conforme a época e o local. Mas ele diz, com clareza, o que nao pode existir: coercao, em qualquer forma; injustica, inclusive a travestida de justica; privilégios; roubo (mesmo quando institucionalizado).

Assim, o tal do "neo-liberalismo" nao é a solucao para os liberais, mas sim parte do problema.

 
At sexta-feira, maio 13, 2005 11:02:00 AM, Anonymous Anônimo said...

fabiana,

boa intervencao. acho que hayek é o melhor exemplo de liberal: nao ´há verdade absoluta. leia o - muito bom (mas dificil de achar em bibliotecas) ensaio Individualism: true and false no livro "individualism and economic order". lá, na minha opiniao, está o melhor da essencia do pensamento liberal.

p.s. bela entrada de homepage. acho que o autor do trecho morou voluntariamente na alemanha oriental. tive oportunidade de conhecer uma alema oriental (oriunda da africa). tinha boas historias sobre como o socialismo funcionou (?) lá.

 

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