domingo, maio 29, 2005

Liberal-Conservadorismo, Libertarismo e os Valores do Ocidente

“Eu trouxe paz e segurança para o meu novo império.”
“Seu império? Anakin, minha lealdade é para com a República. Para com a democracia!”
“Se você não está comigo, está contra mim!”
“Apenas um Sith pensa em termos de absolutos.”


Anakin Skywalker e Obi-Wan Kennobi, em “Star Wars, Episódio III: A Vingança dos Sith”


Meu amigo de internet, Luís Afonso, recentemente publicou um artigo bastante interessante, “(‘I found that essence rare‘) - Minha descoberta racional do conservadorismo” no seu famoso blog, o “Nadando Contra a Maré… Vermelha”. Uma outra versão desse artigo saiu no Mídia sem Máscara.

Confesso que fiquei contente com o artigo do Luís Afonso. Não porque eu necessariamente concorde com todas as opiniões nele contidas (e acho que o Luís e eu, já há algum tempo, chegamos ao ponto em que concordamos graciosa e tranquilamente em discordar), mas porque considero a contribuição que ele fez ao permanente debate entre as duas grandes correntes brasileiras de pensamento liberal extremamente importante. Explico.

Como já escrevi várias vezes, o Liberalismo per si não é uma ideologia, mas sim uma escola de pensamento. Partindo da compreensão do indivíduo como um fim em si mesmo, e do fato de que cada um de nós é dono da sua própria vida, constrói-se um entendimento da motivação fundamental da ação humana (o interesse próprio), e um conjunto teórico coeso de quais instituições políticas e econômicas respeitam a natureza essencialmente individual e singular das pessoas, construindo uma esfera de liberdade para cada indivíduo, dentro da qual ele possa desenvolver suas habilidades e perseguir seus objetivos livre de inteferências de terceiros.

Mas existem vários caminhos para chegar às premissas fundamentais do Liberalismo, e não há consenso completo entre os liberais sobre quais são os elementos necessários para a construção de uma sociedade livre. Claro, certos elementos são praticamente ponto pacífico para todos os liberais (economia de mercado, por exemplo), mas em outras áreas existem imensas divergências. Isso obviamente não é nem espantoso, nem tampouco negativo: afinal, a última coisa que deveríamos esperar de gente que considera a liberdade um valor fundamental e inalienável é unanimidade.

Duas linhas fundamentais de pensamento liberal existem no Brasil: podemos chamá-las de “conservadora” e “libertária”. A primeira constrói seu entendimento sobre a liberdade e a sociedade sobre a base filosófica clássica judaico-cristã, ou seja: parte de um entendimento religioso da existência humana, e daí deriva a justificativa para o individualismo e a liberdade. A última baseia-se em um entendimento fundamentalmente laico da natureza humana (por vezes inspirado nos insights vindos de áreas novas da ciência, como por exemplo a Psicologia Evolutiva), e a partir dessa base ergue sua defesa da liberdade individual. Essa diferença de approach leva a conflitos importantes em áreas cruciais, como as discussões sobre aborto, eutanásia, comércio de drogas, o papel da igreja católica na formação da sociedade ocidental, a relação entre moral religiosa e a ética, os limites da liberdade individual e o que é ou não nocivo ao convívio social e, portanto, uma violação da liberdade de outros.

Quem acompanha meus artigos sabe que eu me situo em algum lugar no meio do caminho. Como ateu, obviamente o entendimento religioso da individualidade humana não me diz nada; não preciso de Deus para justificar porque as pessoas são naturalmente livres e assim devem permanecer. Mas também não compro as posturas libertárias mais radicais, como a liberdade irestrita de aborto ou eutanásia. Minha raíz filosófica é certamente libertária, mas os liberal-conservadores têm méritos importantes que não podem ser ignorados.

É sob essa ótica que considero o artigo do Luís Afonso uma contribuição importante para a discussão entre libertários e conservadores. É uma discussão que deve ser, ao meu ver, um diálogo e não um confronto, visto que o objetivo central de ambos é o mesmo: a defesa da liberdade contra aqueles que querem destruí-la. Isso significa que ambos os lados precisam tomar cuidado com os aliados que escolhem e as causas específicas que abraçam: temos inimigos da liberdade tanto entre os mais puritanos religiosos como entre os mais iconoclastas dos “pró-escolha”. Liberdade é, antes de mais nada, a possibilidade de que as pessoas defendam e façam coisas com as quais não concordamos; ignorar isso é abraçar a tirania. O Luís Afonso contribui nesse diálogo ao mostrar que muitos conservadores não são apenas carolas católicos com dogmas enfiados na cabeça, mas sim herdeiros de uma tradição filosófica formidável– e que, diga-se de passagem, está mais próxima do pensamento liberal clássico, dos Whigs do século XVII e dos revolucionários americanos do XVIII, do que as posições libertárias mais radicais. Os libertários deveriam refletir sobre isso.

Mas os conservadores precisam de um choque de realidade também. Muitas vozes influentes do campo conservador adotam uma postura claramente maniqueísta: e com ela vem uma pregação de que apenas quem partilha integralmente da lógica religiosa judaico-cristã está verdadeiramente comprometido com a defesa da liberdade. Os libertários são frequentemente criticados como aliados da Esquerda ou relativistas morais, ignorando-se que a tradição de separação entre Igreja e Estado e sua consequência direta, a liberdade religiosa – a mesma que permite que os corservadores não apenas preguem aos quatro ventos suas idéias, mas pratiquem suas crenças livres de perseguição estatal ou coerção – não têm suas raízes na filosofia judaico-cristã, mas no racionalismo iluminista do qual os libertários são herdeiros.

E é no maniqueísmo de ambos os lados que temos o grande perigo. A tradição liberal moderna está ancorada tanto no conservadorismo judaico-cristão quanto no racionalismo iluminista; ignorar os méritos (e limitações) de qualquer um dos dois campos é empobrecer o pensamento liberal. Existe um denominador comum que não pode ser ignorado: a ética da civilização ocidental. E essa ética, que inclui a valorização do indivíduo, a condenação da violência, a apreciação da alteridade, a ênfase na razão como ferramenta de compreensão do mundo, e a oposição categórica à coerção, tem raízes muito mais antigas que o conservadorismo cristão ou o racionalismo iluminista. E é na defesa dos valores do Ocidente como um todo, e não de uma parte deles apenas, que está o verdadeiro desafio para os liberais de ambos os campos.

7 Comments:

At segunda-feira, maio 30, 2005 11:04:00 PM, Blogger Luís Afonso said...

Prezado Luiz:
Gostei do seu artigo. Equilibrado.
Mas não posso deixar de notar que para mim o que tu dizes sobre o "racionalismo iluminista" como "à favor da liberdade religiosa" um tanto deslocado. Pelo que estudei até agora, os iluministas foram a primeira gestação dos que queriam criar uma nova religião do estado (e da ciências) a substituir qualquer outra crença. Não creio que objetivavam uma verdadeira liberdade religiosa.
Por outro lado eu também não concordo que havia liberdade religiosa no mundo da cristandade (quando a religião católica se transformou em religião do Estado Romano). Acredito que só com o advento do protestantismo é que a verdadeira liberdade religiosa voltou ao convívio cristão.. A igreja católica pelo menos aprendeu muito com o episódio...

No mais, acredito realmente no que dizes. A liberdade de escolha é o objetivo primordial. Mesmo pelo lado religioso. Não existe verdadeira fé quando alguém é obrigado a obedecer determinados dogmas.
Nem acho que isso é o desejo de Deus. Qual é o pai que gostaria que seus filhos o amassem "obrigatoriamente"?? Nenhum. Deus como pai quer que o amamos de livre e espontânea vontade...
Este é o verdadeiro livre arbítrio.

LA

 
At terça-feira, maio 31, 2005 11:55:00 AM, Blogger Luiz Simi said...

Luís:

fico feliz que você tenha apreciado o artigo.

Você tem razao parcial no que diz sobre o Iluminismo: mas a verdadeira liberdade religiosa só é possível quando ocorre a separacao entre Igreja e Estado. A criacao do Estado Laico era uma das bandeiras do Iluminismo, inclusive entre os Whigs ingleses (mesmo considerando que eles eram, em sua maioria, protestantes fervorosos; vide as Cartas sobre a Tolerância de Locke). O racionalismo pré-positivista, pré-socialista francês nao foi a única vertente do Iluminismo.

A Reforma certamente têm um papel importante nesse processo todo, sem sombra de dúvida. O Ocidente moderno é forjado nas tribulacoes da Reforma e da Contra-Reforma, do Iluminismo, da Revolucao Gloriosa, da Revolucao Americana, e da Revolucao Industrial.

 
At terça-feira, maio 31, 2005 2:59:00 PM, Anonymous Pedro Garaude said...

Prezados,
Minha contribuicao é singela. Comparto a filosofia do artigo sempre e quando seu objetivo for a liberdade consciente. E gostaria de repetir a palavra "consciente".
Um ponto que eu gostaria de ouvir mais do meu amigo Simi assim como dos leitores do Blog é como prover consciencia para o pleno usufruto da liberdade.
Acreditar que os homens têm a mesma capacidade de entendimento e usufruto desta é cometer o mesmo de um dos erro do socialismo que generaliza o homem com muita facilidade. E talvez, um caminho perigoso na busca da evolucao humana.
Minha interpretacao cairia um pouco mais em teorias administrativas de Samuelson que nos pensamentos de Locke onde a capacidade da lideranca é condicionada ao individuo: a conhecida "lideranca situacional".
E deixo a pergunta: Seria utopia falar de uma lideranca situacional na administracao do Estado?

 
At quarta-feira, junho 01, 2005 6:03:00 AM, Blogger Luiz Simi said...

Pedro,

excelente ponto. Acho que dá material para um artigo...

Naturalmente as pessoas nao possuem as mesmas capacidades ou compreensao para poder usurfruir da liberdade. Aliás, a imensa maioria das pessoas a usurfrui de forma marginal. Mas nao é esse o ponto. O fato de que nao sao todos que estao preparados para viver a liberdade nao significa que ela deva ser cerceada. O mínimo denominador comum nao é a solucao aqui; precisamos, isso sim, do máximo multiplicador comum.

Quanto à lideranca situacional do Estado, prefiro pensar nos termos que Peter Drucker coloca: o Estado, tal como qualquer outra organizacao, tem certas "core competences" que precisam ser exploradas e desenvolvidas. É nessas competências centrais que precisamos focar a discussao do Estado. Quais sao elas? Como aproveitá-las para o bem da sociedade? Essas sao as perguntas que precisam ser respondidas. Aí sim seremos capazes de entender quando a lideranca situacional do Estado pode ocorrer, e como direcioná-la.

 
At quarta-feira, novembro 02, 2005 11:49:00 AM, Blogger Roberto Iza Valdes said...

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At sexta-feira, novembro 04, 2005 8:14:00 AM, Blogger Roberto Iza Valdes said...

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At sábado, agosto 25, 2007 11:05:00 AM, Blogger Iza Firewall said...

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