domingo, junho 26, 2005

Um Conto de Dois Profetas

Por Lee Harris
Título Original: "A Tale of Two Prophets"
Tradução: Luiz Simi
Artigo original: Central Tech Station

Na metade do século dezenove dois profetas barbudos surgiram com apelos universais aos pobres e oprimidos do mundo. Um vivia em Londres, e seu nome era Karl Marx. O outro vivia em Salt Lake City, e seu nome era Brigham Young. Um, Marx, tinha a ciência ao seu lado. O outro, o Livro dos Mormons. Marx argumentava que havia determinado as leis férreas que governavam os movimentos da história, e disse aos pobres e aos oprimidos, “organizem partidos socialistas, e tentem derrubar o sistema capitalista.” Brigham Young dizia aos imigrantes esfarrapados que apareciam à sua porta em Salt Lake City, ao fim de uma desgastante e perigosa jornada através das Montanhas Rochosas e das Grandes Planícies, “vão primeiro plantar hortaliças. Aprendam a alimentar a si mesmos com o suor de seus rostos.”

Dos dois homens, Marx teve de longe o maior número de seguidores. O Manifesto do Partido Comunista, afinal de contas, é uma obra muito mais atraente e arrebatadora do que o bizarro texto transcrito por Joseph Smith sob a orientação do anjo Moroni. No entanto, qual profecia mostrou-se mais bem-sucedida? Visite a Rússia para ver o que os seguidores de Marx alcançaram, e depois cruze meio mundo e visite Salt Lake City.

Como é possível que uma religião como o Mormonismo foi capaz de resolver problemas que, até o momento, nenhum sistema puramente secular conseguiu? Como conseguiram os culturalmente atrasados seguidores de Brigham Young florescer e prosperar no deserto, enquanto os mais brilhantes discípulos de Marx acabaram matando dezenas de milhões de seres humanos em nome do progresso? Qual era o segredo do sucesso de Brigham Young?

Brigham Young acreditava que os seres humanos vieram ao mundo para executar pesado trabalho braçal, e que esse era o único caminho certo para a salvação. Marx e seus seguidores acreditavam que os seres humanos vieram ao mundo para usurfruir dele, e sonhavam com um futuro em que a Humanidade finalmente se libertaria da maldição de Adão – a necessidade cruel de ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Máquinas fariam o trabalho por nós; a tecnologia nos libertaria para que devotássemos nosso tempo a buscar fins mais elevados. O trabalho braçal se tornaria uma coisa do passado – como é hoje para tantos americanos modernos, ou pelo menos para os que receberam educação superior; e o mesmo não é menos verdade para as elites educadas ao redor do mundo que ocupam posições de poder econômico e influência política que as eximem da necessidade de realizar o sujo trabalho da vida diária.

Karl Marx sonhava com um mundo sem trabalho braçal; Brigham Young fez dele um dever religioso, uma honra e quiçá um privilégio. Deus teria nos abençoado, dando-nos algo genuinamente produtivo para fazer, como plantar os alimentos que impediriam que morrêssemos de fome, recolher o lixo dos subúrbios e das cidades, construir casas, cuidar dos jardins, ou cuidar dos doentes.

Aos olhos de Brigham Young, o trabalho braçal era na realidade a colaboração com o Todo-Poderoso em seu esforço incessante de melhorar o mundo. O mundo, segundo esse ponto de vista, não foi criado perfeito e acabado, como os teólogos letrados tinham em vão tentado argumentar; ao contrário, ele foi deliberadamente deixado em um estado extremamente incompleto. Por quê? Para que o Homem tivesse uma tarefa de real significado para executar; para que ele pudesse tornar-se co-criador do universo.

Tampouco foram os Mormons os únicos a santificar o trabalho pesado. Sua atitude derivava dos ensinamentos de Calvino, que pregava aquilo que Max Weber tornaria famosa como a Ética Protestante do Trabalho – uma ética que emergiu entre os puritanos, quackers, methodistas, shakers e todas as outras comunidades religiosas que glorificavam o trabalho duro e que inevitavelmente acabou tornando os membros desas comunidades tão prósperos que sua riqueza começou a ameaçar o bem-estar de suas almas.

A teologia do trabalho duro é radicalmente oposta à teologia do intelectual. O intelectual deseja contemplar o mundo, e entender como ele funciona. O homem que trabalha com suas mãos deseja mudá-lo, moldá-lo em uma forma mais desejável. Nada importa para ele em uma idéia além do que Willian James chamava de “valor-dinheiro” – seu significado na vida diária de pessoas concretas.

A filosofia americana conhecida como pragmatismo pode ser compreendida como um método pelo qual os intelectuais tentam recociliar-se com as religiões de trabalho duro. Ela olha para figuras como Brigham Young e diz, “eu concordo que há muito no Mormonismo que é francamente ridículo e absurdo. Mas olhe o que os Mormons foram capazes de fazer. Eles pegaram um deserto e o transformaram em um jardim.”

Marx diz, na conclusão do Manifesto do Partido Comunista, “Trabalhadores do mundo uni-vos; vocês não têm nada a perder além de suas correntes; mas têm um mundo a ganhar.”

Afortunada foi a sorte dos trabalhadores do mundo que decidiram unir-se em Salt Lake City, sob a liderança de Brigham Young. Eles não ganharam um mundo; eles fizeram um, tal como os protestantes holandeses construíram seu país drenando o mar. Eles pegaram aquilo que Deus não tinha terminado e completaram para Ele, e para si mesmos.

Quando jovem, Marx argumentava em suas Teses Contra Feuerbach que a filosofia tinha contemplado o mundo por tempo demais, e que o momento para mudá-lo havia chegado. Mas quando os intelectuais tentaram melhorar o mundo sempre acabaram por piorá-lo. Apenas os fanáticos religiosos que foram loucos o suficiente para acreditar que o trabalho duro dos indivíduos era um dever sagrado tiveram sucesso em mudar a condição material da Humanidade para melhor.

Lee Harris é autor do livro: “Civilization and Its Enemies: The Next Stage of History”.

domingo, junho 19, 2005

Liberalismo, Sociedade e a Guerra de Valores

Frequentemente digo que o Liberalismo não é uma ideologia, mas uma escola de pensamento. Digo isso com frequência porque, para quem conhece as obras dos grandes liberais, e entende os princípios por trás do que escreveram, fica claro que o Liberalismo difere das diversas ideologias que existem por aí por ser não-normativo. O Liberalismo não oferece uma “receita de bolo” sobre como a sociedade deve ser organizada; oferece, isso sim, um certo conjunto de princípios éticos que devem guiar as relações dos indivíduos entre si e com o Estado. Esses princípios não são resultado de teorização sociológica abstrata, mas de observação empírica de como a sociedade realmente se organiza e dos elementos da condição humana que motivam as pessoas a agirem. Com base nessa observação empírica, concreta da realidade, deduz-se quais princípios de relacionamento interpessoal precisam estar presentes na sociedade para que os indivíduos possam perseguir seus objetivos com a maior chance de sucesso possível. Sobre esse arcabouço ético fundamental uma ampla variedade de possíveis estruturas sociais pode ser construída, com graus de eficiência variáveis.

Não existe “a” sociedade liberal ideal, uma utopia a perseguir, mas sim uma estrutura ética fundamental que, ao interagir com as sociedades e culturas existentes (cada uma com sua história, cultura, práticas políticas e religiosas, e peculiaridades), cria a cada interação uma sociedade que não é utópica, mas uma versão “libertária” da cultura original. Para que essa interação tenha sucesso, certos elementos da cultura original que oprimem ou limitam excessivamente o indivíduo terão que desaparecer; mas o que nós entendemos como Liberalismo “clássico” também não passará incólume pelo processo. A adoção do Liberalismo, pois, acaba ocorrendo em sucessivas “rodadas”, em que a sociedade originalmente fechada adota alguns elementos do Liberalismo mas fecha-se a outros, tornando-se mais livre do que antes mas não inteiramente liberal. Essa nova sociedade, mais livre, é por sua vez mais receptiva a outras idéias liberais do que era antes, tornando mais fácil que ocorra uma nova rodada de liberalização, e assim por diante. Um pouco de liberdade, mesmo que imperfeita, abre espaço para mais liberdade no futuro.

Claro, o processo não é tão simples assim. As sociedades respondem simultaneamente a uma série de estímulos e influências, muitas claramente anti-liberais. Como todo processo de mudança social, a integração do Liberalismo na estrutura da sociedade segue um caminho tortuoso, cheio de idas e vindas, avanços e retrocessos, desvios de trajetória e passos em falso. E, ao contrário do que um determinista histórico poderia dizer, não é de forma alguma um processo que seguramente será bem-sucedido no fim das contas: é perfeitamente possível que uma sociedade, em algum momento, abandone completamente o caminho do Liberalismo e caia nas mãos de doutrinas ou ideologias inimíticas da liberdade. O que ocorreu na Alemanha entre o fim do século XIX e a metade do XX é ilustrativo: embora tenha sido entre os alemães que o importantíssimo conceito liberal do Estado de Direito (Rechtstaat) tenha surgido e se desenvolvido intelectualmente, e que grande esforço tenha sido feito no sentido de embutir no então nascente império alemão instituições que garantissem aos cidadãos direitos e liberdades invioláveis (em um processo notável de conscientização popular e debate intelectual que influencia a sociedade alemã até hoje), isso não impediu primeiro que os Hohenzollern, família real da Prússia, estabelecesse um regime absolutista, tirânico e anti-liberal de facto; nem tampouco impediu, após a queda dos Hohenzollern e a implantação da República de Weimar, que inicialmente os socialistas e depois seus herdeiros políticos, os nazistas, gradualmente solapassem as estruturas fundamentais da sociedade alemã e conduzissem o país ao Terceiro Reich, e a sua quase total destruição. Não existe “inevitabilidade histórica.”

Toda essa divagação sobre como as sociedades adotam ou não os princípios liberais tem como objetivo realçar uma realidade que precisa estar permanentemente na consciência dos liberais: o pensamento liberal, considerado como uma ideologia ou receita pronta para construir uma sociedade melhor, não é universalmente aceito, jamais foi, e provavelmente jamais será. Mas longe de significar que a causa da liberdade está perdida, esse fato simplesmente nos mostra que o caminho a seguir é talvez um pouco mais complicado, mas existe.

O primeiro ponto que precisamos entender é que o Liberalismo, embora seja indubitávelmente, como escola de pensamento, produto de uma cultura, época e contexto específicos (mais precisamente, a cultura anglo-saxônica, cristã, mercantil dos séculos XVII e XVIII), os princípios que ele defende não são. Eles são universais, atemporais, pois são parte da natureza humana. Nós nascemos livres, independente de nossa nacionalidade, origem social e étnica, ou formação religiosa. Nesse sentido o Liberalismo não foi exatamente criado, mas sim descoberto.

Pois fundamentalmente o que é o Liberalismo? Não é uma ideologia, pois não dá receita de bolo sobre como construir uma sociedade; não é apenas uma escola de pensamento, pois como coloquei, a doutrina em si é mero produto de um certo contexto histórico; então, o que é? Simples: o Liberalismo é a aceitação de que o indivíduo é um fim em si mesmo, e não uma ferramenta do grupo social a que pertence. Cada pessoa é primeiramente definida em si mesma, e a às suas características fundamentais (umas naturais, partilhadas com todos os seres humanos; outras absolutamente individuais, produto das vagarias da genética e da sorte) somam-se depois os elementos da cultura em que ela nasce e cresce. Esses elementos culturais e ambientais, ao interagir com esse substrato fundamental da individualidade, geram um indivíduo que é único, diferente de todos os demais, e que tem valor em si mesmo, independente de como a sociedade o vê ou trata. E essa verdade fundamental, claramente, não é nem produto de uma cultura qualquer, nem uma construção teórica que não tem ligação com a realidade. É um fato da natureza.

E dentro desse contexto que precisamos pensar o Liberalismo fora dos países e culturas que geraram a doutrina liberal. A grande contribuição da civilização ocidental ao mundo foi ter construído sociedades onde o valor do indivíduo é mais respeitado do que jamais foi em qualquer lugar, em qualquer tempo. Sob certos aspectos, até mesmo a aceitação de comportamentos e instituições que consideramos claramente não-liberais (como programas universais, estatais de saúde ou educação, ou a cultura do politicamente correto) são resultado, ainda que desorientado e fadado ao fracasso, de uma adesão inconsciente da maioria das pessoas de que cada indivíduo tem valor em si mesmo, e merece ter esse valor reconhecido e preservado. Liberalismo não é sinônimo de capitalismo laissez-faire, ou democracia representativa, ou moralidade judaico-cristã (embora frequentemente encontre maior expressão em sociedades que tem as três); esses são frequentemente seus corolários, não suas origens. Liberalismo é fundamentalmente um conjunto de valores: a ética da liberdade e responsabilidade individuais. E são os valores, não seus corolários, que devemos defender e divulgar.

Na guerra de valores, precisamos entender claramente quem está ao nosso lado e quem não está. Dividir o mundo entre “direitistas bons” e “esquerdistas maus” é meramente praticar um marxismo rasteiro com sinal invertido. Muitas vezes um social-democrata “mente aberta” será um aliado mais confiável e sólido do que um libertário radical que quer demolir a sociedade e construir o paraíso anarco-capitalista no seu lugar, ou que um conservador linha-dura que acha que o caminho para salvar o mundo é fuzilar todos os marxistas. Nem todos os que se auto-intitulam conservadores ou libertários são aliados do Liberalismo, nem todos os que estão na Esquerda são seus inimigos. A questão aqui é identificar, para além dos rótulos ideológicos e políticos superficiais, se existe um consenso mínimo de valores éticos, baseados na valorização do indivíduo e na preservação da liberdade individual, que permitam uma identidade de idéias e ação. Existirão divergências, mas isso é absolutamente normal: mesmo os que consideram-se liberais e partilham rigorosamente dos mesmos princípios inevitávelmente divergem em inúmeros temas. Mas se existe a identidade de valores, é possível encontrar uma solução de compromisso que preserve o máximo de liberdade que a situação permita e atinja o objetivo almejado. Isso significa, fundamentalmente, que é necessário que exista consenso de que os fins não justificam os meios jamais.

Precisamos pois ir além da mera defesa do livre mercado ou da democracia representativa. Precisamos fazer a guerra de valores. Precisamos de toda a alavancagem que pudermos obter, o que significa procurar aliados e simpatizantes em todos os espectros ideológicos, e principalmente, na maioria silenciosa que não dá a mínima para o discurso fortemente ideológico, mas que entende e aprova o discurso de valores éticos.

O grande sucesso dos liberais de outrora não foi ter construído democracias representativas ou o capitalismo laissez-faire; foi ter conscientizado as pessoas de tal maneira para a importância dos valores liberais que mesmo hoje, séculos, migrações e revoluções depois, esses valores continuam representando uma parte importantíssima da chamada sabedoria popular. “Aqui se faz, aqui se paga”, “quem poupa, tem”, “quando a cabeça não pensa o corpo padece”, “quem planta vento, colhe tempestade”, “a mentira tem perna curta”, “quem espera na janela vê a vida passar”, “a césar o que é de césar”, “quem procura, acha”, “Deus ajuda quem ajuda a si mesmo”, “quem dá aos pobres empresta a Deus”, “quem fala o que quer, ouve o que não quer”; todas essas frases populares e muitas outras, cotidianas, que todos conhecemos, são reflexo de uma aceitação quase inconsciente de corolários que são intrinsecamente liberais: a importância do trabalho honesto, da honestidade, das relações baseadas na confiança, da responsabilidade individual, e da disposição em buscar construir uma vida melhor para si e para os seus de forma digna. É sobre essa base de valores que precisamos construir o edifício do Liberalismo. O Liberalismo pode não ser aceito como escola de pensamento ou ideologia, mas as pessoas são capazes de indetificar-se com os valores que ele representa e adotá-los. E é como um sistema de valores que o Liberalismo melhor trabalha na defesa da liberdade. Então, deixemos de lado o discurso economicista e vamos ao que interessa: façamos o debate moral. O discurso da economia e da política pode ganhar as mentes, mas só a ética ganha os corações.

domingo, junho 12, 2005

Curtas

Porque a Representação Proporcional Não Funciona

Em tempos de mensalão e ressureição oportunista do batido tema da reforma política, vale a pena refletir sobre os problemas que o nosso sistema político apresenta. É fácil simplesmente colocar a culpa sobre a falta de caráter dos paralamentares e do governo (absolutamente verdadeira, diga-se de passagem); mas não podemos esquecer que os inescrupulosos só conseguem prosperar quando o sistema em que estão inseridos de alguma forma os protege ou beneficia. Minha recomendação: um artigo interessantíssimo (em inglês) a respeito dos problemas do sistema de representação proporcional para o Legislativo. O autor indica que, via de regra, países com sistemas de representação proporcional (como o Brasil) são mais propensos à instabilidade política. A razão? O sistema proporcional com listas de candidatos, todos disputando os votos dos eleitores de uma região geográfica muito grande, e com as listas sendo definidas pelos líderes dos partidos (normalmente políticos mais velhos e intimamente conectados ao sistema de poder do Estado), tende a perpetuar os velhos líderes e barrar os reformistas e políticos jovens. Detalhe: é exatamente esse sistema que querem implementar no Brasil com a tal da reforma política.

A alternativa é o voto distrital, em que cada parlamentar é eleito por uma região geográfica pequena e claramente definida, e que portanto cria uma forte identificação entre o político e seu eleitorado. Claro, o sistema distrital é suscetível à política provinciana e ao assistencialismo; mas o sistema atual não só também o é, como não oferece a vantagem de dar ao eleitor um nome, um representante claro de quem ele deve cobrar soluções, ou a que deve responsabilizar diretamente pelos problemas causados pela má gestão da coisa pública. O sistema eleitoral não é, afinal de contas, criado para evitar assistencialismo ou barganhas por emendas no orçamento; sua função é garantir que os ditos “representantes do povo” efetivamente representem quem os elegeu. Voto proporcional, sem dúvida, não é o caminho para isso.


Reinaldo Azevedo destrói a “Sociologia do Ressentimento”

Eu normalmente não comento sobre política partidária ou conjuntura política no “Livre Pensamento”; já faço isso em meus artigos, por exemplo, para o Capitólio e Diego Casagrande. Mas não posso deixar de comentar o excelente artigo publicado hoje pelo Reinaldo Azevedo no site da Primeira Leitura. No seu artigo Deixem a Daslu em paz e vão perseguir a turma do mensalão!, ele desanca de forma fantástica o que ele chama, mui aptamente, de “sociologia do ressentimento”e destrói a argumentação falaciosa, sofismática e absolutamente mentirosa do sr. Mino Carta e cia. a respeito da nova loja da Daslu. E mostra novamente que a “intelectualidade” esquerdista brasileira só merece esse título em um país como o nosso, onde a burrice a má fé são mais importantes e apreciadas do que a verdade e a inteligência. O trecho final vale a leitura do artigo todo:

“O melhor que este país pode fazer por si mesmo é permitir que as pessoas honestas, ricas ou pobres, possam trabalhar em paz. Dentro das boas regras de mercado, um país só avança se os ricos lutarem para ficar ainda mais ricos e se os pobres se esforçarem para deixar de ser pobres. E que todos, pobres e ricos, se organizem para interferir nas políticas públicas do Estado, que tem de tomar vergonha e empregar a brutal arrecadação de que dispõe em educação, saúde e segurança, caindo fora da atividade econômica. Total e absolutamente!

A melhor maneira de a favela Funchal não crescer é a Daslu dar uma solene banana para a favela Funchal enquanto tal. Eliana Trachesi honrará suas crenças, seus valores e o Brasil se crescer, rezar e fizer caridade sem dar satisfações a ninguém. Ou vão querer proibi-la de ser empresária, católica e bem-sucedida? Se há gente no país disposta a fazer rádio-patrulha ideológica, tenho cá uma listinha de maganos eleitos para resolver problemas do país. E não para acrescentar outros tantos aos que já tínhamos.”


Eu não diria melhor.


Recém-chegado ao Time da Liberdade

Alguns dias atrás saiu publicado no Capitólio a primeira parte do artigo de estréia de Diogo Ramos Coelho. Em Discutindo o Capitalismo, ele analisa as características do capitalismo moderno e indica porque as utopias coletivistas não oferecem solução. O texto é denso, com um tom acadêmico, mas uma leitura bastante interessante e relevante.

Em particular, fiquei muito satisfeito de ver o artigo do Diogo ser publicado, porque tive a oportunidade de ajudá-lo a “lapidar” um pouco o texto. Fiquei muito contente com a chance de ajudar alguém a começar a trilhar o caminho das pedras, por assim dizer, e espero que o Diogo continue a escrever e publicar seus artigos. É sempre bom ver gente nova disposta a desafiar o consenso intelectual coletivista dominante e defender o bom e velho individualismo.

Fica aqui minha recomendação aos leitores do “Livre Pensamento” para que leiam o que o Diogo está escrevendo, e fiquem atentos para as próximas aparições do rapaz na Internet. Ele promete.

terça-feira, junho 07, 2005

Esquerda e Direita

Primeiramente, minhas apologias aos leitores regulares do “Livre Pensamento”. Eu tento normalmente atualizá-lo pelo menos uma vez por semana (normalmente aos domingos), mas esta semana isso foi inviável. Segue pois a atualização atrasada, por assim dizer. Tentarei retornar ao ritmo de atualizações dominicais já esta semana.

Mesmo assim, hoje não tenho um artigo novo para postar. Estou no momento usando meu (escasso) tempo livre para colocar minhas leituras em dia – algo que renderá alguns artigos no futuro próximo. Hoje quero partilhar três dessas leituras com meus amigos da blogosfera. O tema é o já manjado (alguns diriam claudicante) debate sobre o que é Esquerda e Direita.

Recentemente li um artigo sobre o tema de ninguém menos que Augusto de Franco. Para quem não conhece, Augusto de Franco é talvez uma das figuras mais marcantes da Esquerda brasileira. Foi membro do Diretório Nacional do PT até 1991, mas gradualmente afastou-se do partido e tornou-se um crítico agudo da estratégia hegemonista, gramnisciana que a agremiação dos burgueses com capital alheio adotava e adota. Augusto de Franco parece ter um perfil raro entre os pensadores brasileiros: é capaz de articular idéias de forma independente, sem que o vínculo partidário nuble seu julgamento. Embora não concordemos em muitos pontos, respeito Augusto de Franco como um pensador original.

No artigo “Sobre a possibilidade de uma ‘esquerda moderna’”, de Franco faz reflexões interessantes sobre o conflito entre Direita e Esquerda. Embora ele começe sua abordagem de forma tradicional, por assim dizer (ao declarar que essa divisão está ultrapassada), de Franco constrói a partir daí uma série de conceitos interessantes. Alguns trechos:

“Não há mais como definir tal quadro a partir de movimentos nos modos de produção; por exemplo, diante do avanço ou da agonia do capitalismo ou, mesmo, diante da derrocada ou da falência do socialismo. Assim como também não se pode mais fazer isso a partir de uma matriz teórica ético-política abstrata, baseada em idéias-valores como liberdade e igualdade.”

(…)

“É significativo que não se tenha ainda constituído plenamente, como categoria analítica operativa da política, algum critério baseado na adesão à democracia. A aplicação desse critério é mesmo difícil porquanto, nos dias de hoje, quase ninguém quer se declarar contra a democracia. Ele só pode ser aplicado a partir de uma avaliação das conseqüências objetivas das políticas inspiradas por uma determinada tendência, que revele se elas se colocam a favor do processo de democratização das relações sociais e políticas, ou seja, a favor da democratização da sociedade e da democratização da democracia ou se, pelo contrário, elas se colocam, mesmo sem que isso jamais seja declarado, contra tal processo (ou a favor da autocratização das relações sociais e da democracia).

Como o sentido da política (democrática) é a liberdade, freqüentemente a esquerda qualificou os que se definiam pela aposta na democratização da sociedade, como sendo liberais (no sentido político do termo, do liberalismo político) e, às vezes, de direita. O que, parece claro, só faz sentido negativamente, denunciando que a esquerda realmente existente nunca esteve completamente convertida à democracia.”

(…)

“É possível, entretanto, estabelecer um outro referencial que, tomando a globalização-localização (ou, se preferirmos, a glocalização) como pano de fundo, avalie as tendências políticas existentes a partir do papel que conferem – considerado tal background – aos principais tipos de agenciamentos existentes na contemporaneidade: o Estado, o mercado e a sociedade civil.

Se adotarmos tal referencial veremos que a social-democracia, em quaisquer de suas variantes, é uma classe de tendências estadocêntricas. É por isso que se fala, com razão, de estatismo social-democrata (Offe, 1999) ou de estatal-democracia (Franco, 1995). Constituem igualmente variantes estadocêntricas ou formas de estatismo, tanto o socialismo da esquerda quanto a maior parte das alternativas de direita.

Ou seja, a direita, sob esse ponto de vista, não se contrapõe à esquerda. Esquerda e direita, porém, se contrapõem igualmente ao liberalismo de mercado ou neoliberalismo (às vezes também considerado de direita, talvez mais por tal razão, "topográfica", do que por qualquer outra). A questão aqui é saber quem é a favor e quem é contra a suficiência do Estado ou a prevalência do protagonismo estatal e do monopólio estatal do público. Trata-se, então, de um estadocentrismo contra um mercadocentrismo.”


(…)

“Um mapeamento dos projetos políticos existentes na atualidade do ponto de vista do papel que conferem ao Estado, ao mercado e a sociedade civil diante do fenômeno complexo da globalização-localização, poderia revelar qual confluência de tendências levaria à constituição de uma alternativa baseada na radicalização da democracia.”

O artigo é interessante e vale a pena ser lido. Como já coloquei, não concordo em vários pontos com de Franco: não acho, por exemplo, que possamos abandonar as idéias-valores da liberdade ou da igualdade na estruturação de modelos político-econômicos; a política sem um norte ético é mera realpolitick, o jogo nú de interesses sem visão de mundo. Mas as críticas que ele faz à Direita e à Esquerda merecem reflexão; o dualismo estatolatria x mercadolatria pouco ajuda a explicar o mundo. Mais importante para nós, liberais, é também ter em mente que o Liberalismo não é apenas a defesa do controle público sobre o poder do Estado e a promoção do livre mercado; esses dois pontos são fundamentais mas insuficientes para enfrentar o mundo complexo que temos aí fora.

A atenção que de Franco dá ao papel da sociedade civil organizada é coerente com a visão liberal de que o Estado não deve prover aquilo que a iniciativa privada é capaz de fazer por si só; e aqui precisamos entender que “iniciativa privada” não é apenas a atividade capitalista, mas também o conjunto de ações do chamado “terceiro setor”. Eu sei que no Brasil a “sociedade civil organizada” frequentemente é mera fachada para grupos de lobby e aparelhamento da esquerda marxista, mas isso não pode fechar nossos olhos para o fato de que ela também não é só isso. Nossa defesa da livre iniciativa não pode estar restrita à atividade com fins lucrativos, mas abranger toda atividade privada socialmente útil – empresarial ou não. A bandeira da defesa da sociedade civil organizada é fundamentalmente liberal, e não pode ser deixada nas mãos dos inimigos da liberdade e da democracia, que na primeira oportunidade farão o que puderem para esmagá-la. Só assim podemos escapar da dicotomia simplista Estado versus Mercado e evitar a armadilha de acabarmos nos tornando idênticos ao que queremos combater.

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