domingo, junho 19, 2005

Liberalismo, Sociedade e a Guerra de Valores

Frequentemente digo que o Liberalismo não é uma ideologia, mas uma escola de pensamento. Digo isso com frequência porque, para quem conhece as obras dos grandes liberais, e entende os princípios por trás do que escreveram, fica claro que o Liberalismo difere das diversas ideologias que existem por aí por ser não-normativo. O Liberalismo não oferece uma “receita de bolo” sobre como a sociedade deve ser organizada; oferece, isso sim, um certo conjunto de princípios éticos que devem guiar as relações dos indivíduos entre si e com o Estado. Esses princípios não são resultado de teorização sociológica abstrata, mas de observação empírica de como a sociedade realmente se organiza e dos elementos da condição humana que motivam as pessoas a agirem. Com base nessa observação empírica, concreta da realidade, deduz-se quais princípios de relacionamento interpessoal precisam estar presentes na sociedade para que os indivíduos possam perseguir seus objetivos com a maior chance de sucesso possível. Sobre esse arcabouço ético fundamental uma ampla variedade de possíveis estruturas sociais pode ser construída, com graus de eficiência variáveis.

Não existe “a” sociedade liberal ideal, uma utopia a perseguir, mas sim uma estrutura ética fundamental que, ao interagir com as sociedades e culturas existentes (cada uma com sua história, cultura, práticas políticas e religiosas, e peculiaridades), cria a cada interação uma sociedade que não é utópica, mas uma versão “libertária” da cultura original. Para que essa interação tenha sucesso, certos elementos da cultura original que oprimem ou limitam excessivamente o indivíduo terão que desaparecer; mas o que nós entendemos como Liberalismo “clássico” também não passará incólume pelo processo. A adoção do Liberalismo, pois, acaba ocorrendo em sucessivas “rodadas”, em que a sociedade originalmente fechada adota alguns elementos do Liberalismo mas fecha-se a outros, tornando-se mais livre do que antes mas não inteiramente liberal. Essa nova sociedade, mais livre, é por sua vez mais receptiva a outras idéias liberais do que era antes, tornando mais fácil que ocorra uma nova rodada de liberalização, e assim por diante. Um pouco de liberdade, mesmo que imperfeita, abre espaço para mais liberdade no futuro.

Claro, o processo não é tão simples assim. As sociedades respondem simultaneamente a uma série de estímulos e influências, muitas claramente anti-liberais. Como todo processo de mudança social, a integração do Liberalismo na estrutura da sociedade segue um caminho tortuoso, cheio de idas e vindas, avanços e retrocessos, desvios de trajetória e passos em falso. E, ao contrário do que um determinista histórico poderia dizer, não é de forma alguma um processo que seguramente será bem-sucedido no fim das contas: é perfeitamente possível que uma sociedade, em algum momento, abandone completamente o caminho do Liberalismo e caia nas mãos de doutrinas ou ideologias inimíticas da liberdade. O que ocorreu na Alemanha entre o fim do século XIX e a metade do XX é ilustrativo: embora tenha sido entre os alemães que o importantíssimo conceito liberal do Estado de Direito (Rechtstaat) tenha surgido e se desenvolvido intelectualmente, e que grande esforço tenha sido feito no sentido de embutir no então nascente império alemão instituições que garantissem aos cidadãos direitos e liberdades invioláveis (em um processo notável de conscientização popular e debate intelectual que influencia a sociedade alemã até hoje), isso não impediu primeiro que os Hohenzollern, família real da Prússia, estabelecesse um regime absolutista, tirânico e anti-liberal de facto; nem tampouco impediu, após a queda dos Hohenzollern e a implantação da República de Weimar, que inicialmente os socialistas e depois seus herdeiros políticos, os nazistas, gradualmente solapassem as estruturas fundamentais da sociedade alemã e conduzissem o país ao Terceiro Reich, e a sua quase total destruição. Não existe “inevitabilidade histórica.”

Toda essa divagação sobre como as sociedades adotam ou não os princípios liberais tem como objetivo realçar uma realidade que precisa estar permanentemente na consciência dos liberais: o pensamento liberal, considerado como uma ideologia ou receita pronta para construir uma sociedade melhor, não é universalmente aceito, jamais foi, e provavelmente jamais será. Mas longe de significar que a causa da liberdade está perdida, esse fato simplesmente nos mostra que o caminho a seguir é talvez um pouco mais complicado, mas existe.

O primeiro ponto que precisamos entender é que o Liberalismo, embora seja indubitávelmente, como escola de pensamento, produto de uma cultura, época e contexto específicos (mais precisamente, a cultura anglo-saxônica, cristã, mercantil dos séculos XVII e XVIII), os princípios que ele defende não são. Eles são universais, atemporais, pois são parte da natureza humana. Nós nascemos livres, independente de nossa nacionalidade, origem social e étnica, ou formação religiosa. Nesse sentido o Liberalismo não foi exatamente criado, mas sim descoberto.

Pois fundamentalmente o que é o Liberalismo? Não é uma ideologia, pois não dá receita de bolo sobre como construir uma sociedade; não é apenas uma escola de pensamento, pois como coloquei, a doutrina em si é mero produto de um certo contexto histórico; então, o que é? Simples: o Liberalismo é a aceitação de que o indivíduo é um fim em si mesmo, e não uma ferramenta do grupo social a que pertence. Cada pessoa é primeiramente definida em si mesma, e a às suas características fundamentais (umas naturais, partilhadas com todos os seres humanos; outras absolutamente individuais, produto das vagarias da genética e da sorte) somam-se depois os elementos da cultura em que ela nasce e cresce. Esses elementos culturais e ambientais, ao interagir com esse substrato fundamental da individualidade, geram um indivíduo que é único, diferente de todos os demais, e que tem valor em si mesmo, independente de como a sociedade o vê ou trata. E essa verdade fundamental, claramente, não é nem produto de uma cultura qualquer, nem uma construção teórica que não tem ligação com a realidade. É um fato da natureza.

E dentro desse contexto que precisamos pensar o Liberalismo fora dos países e culturas que geraram a doutrina liberal. A grande contribuição da civilização ocidental ao mundo foi ter construído sociedades onde o valor do indivíduo é mais respeitado do que jamais foi em qualquer lugar, em qualquer tempo. Sob certos aspectos, até mesmo a aceitação de comportamentos e instituições que consideramos claramente não-liberais (como programas universais, estatais de saúde ou educação, ou a cultura do politicamente correto) são resultado, ainda que desorientado e fadado ao fracasso, de uma adesão inconsciente da maioria das pessoas de que cada indivíduo tem valor em si mesmo, e merece ter esse valor reconhecido e preservado. Liberalismo não é sinônimo de capitalismo laissez-faire, ou democracia representativa, ou moralidade judaico-cristã (embora frequentemente encontre maior expressão em sociedades que tem as três); esses são frequentemente seus corolários, não suas origens. Liberalismo é fundamentalmente um conjunto de valores: a ética da liberdade e responsabilidade individuais. E são os valores, não seus corolários, que devemos defender e divulgar.

Na guerra de valores, precisamos entender claramente quem está ao nosso lado e quem não está. Dividir o mundo entre “direitistas bons” e “esquerdistas maus” é meramente praticar um marxismo rasteiro com sinal invertido. Muitas vezes um social-democrata “mente aberta” será um aliado mais confiável e sólido do que um libertário radical que quer demolir a sociedade e construir o paraíso anarco-capitalista no seu lugar, ou que um conservador linha-dura que acha que o caminho para salvar o mundo é fuzilar todos os marxistas. Nem todos os que se auto-intitulam conservadores ou libertários são aliados do Liberalismo, nem todos os que estão na Esquerda são seus inimigos. A questão aqui é identificar, para além dos rótulos ideológicos e políticos superficiais, se existe um consenso mínimo de valores éticos, baseados na valorização do indivíduo e na preservação da liberdade individual, que permitam uma identidade de idéias e ação. Existirão divergências, mas isso é absolutamente normal: mesmo os que consideram-se liberais e partilham rigorosamente dos mesmos princípios inevitávelmente divergem em inúmeros temas. Mas se existe a identidade de valores, é possível encontrar uma solução de compromisso que preserve o máximo de liberdade que a situação permita e atinja o objetivo almejado. Isso significa, fundamentalmente, que é necessário que exista consenso de que os fins não justificam os meios jamais.

Precisamos pois ir além da mera defesa do livre mercado ou da democracia representativa. Precisamos fazer a guerra de valores. Precisamos de toda a alavancagem que pudermos obter, o que significa procurar aliados e simpatizantes em todos os espectros ideológicos, e principalmente, na maioria silenciosa que não dá a mínima para o discurso fortemente ideológico, mas que entende e aprova o discurso de valores éticos.

O grande sucesso dos liberais de outrora não foi ter construído democracias representativas ou o capitalismo laissez-faire; foi ter conscientizado as pessoas de tal maneira para a importância dos valores liberais que mesmo hoje, séculos, migrações e revoluções depois, esses valores continuam representando uma parte importantíssima da chamada sabedoria popular. “Aqui se faz, aqui se paga”, “quem poupa, tem”, “quando a cabeça não pensa o corpo padece”, “quem planta vento, colhe tempestade”, “a mentira tem perna curta”, “quem espera na janela vê a vida passar”, “a césar o que é de césar”, “quem procura, acha”, “Deus ajuda quem ajuda a si mesmo”, “quem dá aos pobres empresta a Deus”, “quem fala o que quer, ouve o que não quer”; todas essas frases populares e muitas outras, cotidianas, que todos conhecemos, são reflexo de uma aceitação quase inconsciente de corolários que são intrinsecamente liberais: a importância do trabalho honesto, da honestidade, das relações baseadas na confiança, da responsabilidade individual, e da disposição em buscar construir uma vida melhor para si e para os seus de forma digna. É sobre essa base de valores que precisamos construir o edifício do Liberalismo. O Liberalismo pode não ser aceito como escola de pensamento ou ideologia, mas as pessoas são capazes de indetificar-se com os valores que ele representa e adotá-los. E é como um sistema de valores que o Liberalismo melhor trabalha na defesa da liberdade. Então, deixemos de lado o discurso economicista e vamos ao que interessa: façamos o debate moral. O discurso da economia e da política pode ganhar as mentes, mas só a ética ganha os corações.

2 Comments:

At sexta-feira, junho 24, 2005 10:03:00 AM, Blogger Noko Nosko said...

Olá Luiz!

Muito bom o seu blog.
Embora eu seja mais de direita e não muito fã da democracia, adorei o que você escreve.

Um Abraço!

Douglas

 
At terça-feira, agosto 30, 2011 4:33:00 PM, Blogger Rancho do Tico said...

Olá Luiz
Adorei seu Blog,partilho da sua opinião e apesar de estar a frente do Serviço Social,amo Política e discordo de varios programas assistenciais, concordo com Adam Smith e Durkhein, Parabéns!

 

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