segunda-feira, agosto 29, 2005

Porque Utopias Não Me Atraem

No mercado de ideologias um dos produtos que mais vende desde o século XVIII é a utopia. Ela vem em diversas formas, sabores, e embalagens: pode ser liberal, anarco-capitalista, marxista, neo-marxista, fascista, nazista, sionista, anarquista de esquerda, cristã-socialista (!), tecnológica, ou alguma outra variedade; pode ser “alcançável” por meio de revoluções, processos profundos de “conscientização” coletiva, reprodução seletiva para garantir “pureza racial”, guerras de “libertação”, ou uma combinação destes e outros métodos. E claro, como são utopias, todas garantem uma vida livre dos dissabores de hoje, cheia de alegria, fraternidade, solidariedade e liberdade para todos, mas somente quando forem alcançadas.

Utopias não me atraem de modo algum. Eu as considero uma das invenções mais desafortunadas e destrutivas que a razão humana já produziu. Se existe algo que as utopias provocam em mim, é asco.

Explico. Utopias são, por definição, inalcançáveis. Mesmo aqueles que as seguem sabem disso. Para pessoas normais, perseguir um objetivo que por definição é inalcançável é simplesmente estúpido: significa desperdiçar recursos e esforços em busca de um resultado que já sabemos de antemão ser impossível de obter, por mais desejável que esse resultado possa parecer. Além disso, mesmo que um objetivo idealizado seja de alguma forma alcançável, é sempre possível que as consequências de atingí-lo sejam negativas, talvez tão negativas que efetivamente anulem o eventual benefício que se queria obter em primeiro lugar. Mas para aqueles que perseguem uma utopia, parece óbvio que atingí-la seria a coisa mais fantástica que poderia acontecer com a Humanidade; e mesmo que acreditem racionalmente que sua utopia de estimação é inalcançável, eles tentam pautar suas ações com a pergunta: “este curso de ação ajudará a trazer a minha utopia mais perto da sua concretização?” Se sim, então vale a pena fazer; caso contrário, não.

Uma Ilustração: A Fábula das Árvores de Ouro

Uma pequena fábula ajuda a ilustrar o problema da perseguição das utopias e suas consequências: digamos que eu considere fantástico que ouro brote em árvores. Por mais que eu tente, provavelmente não vou conseguir criar em laboratório uma que o faça; pior ainda, jamais conseguirei substituir todas as árvores do mundo por outras que produzam ouro. Mas digamos que que eu consiga, por um passe de mágica, fazer todas as árvores do mundo darem frutos dourados? O resultado seria que o ouro, agora absurdamente abundante, não vale absolutamente nada. E agora que todas as árvores dão ouro, não existem mais árvores frutíferas, e a fome dizima uma parcela imensa da população; afinal, não se pode comer ouro. Os eventuais benefícios que eu acreditava que as árvores auríferas trariam para o mundo simplesmente não se materializaram, porque na minha busca por esse objetivo utópico, ignorei ou não fui capaz de antever todas as consequências das minhas ações e os danos que causei ao longo do caminho. Pior, quando finalmente alcancei meu objetivo, percebi que ele na verdade não era o que eu queria.

A fábula acima ajuda também a realçar uma das características mais importantes de uma utopia: ela representa uma mudança radical, dramática, fundamental do mundo. A utopia é completamente diferente do mundo em que vivemos, as mudanças que ela propõe são profundas, alterando inteiramente a forma como a sociedade funciona e como as pessoas se relacionam. Mas ainda mais marcante, o que todas as utopias têm em comum é a uniformidade. Todas propõe um mundo uniforme, harmonioso, essencialmente unificado, em lugar da realidade caótica, conflituosa, segmentada e absurdamente variada do mundo real. Todas as utopias representam, se observadas atentamente, o fim da individualidade. Não é que algumas árvores darão frutos de ouro; todas precisam fazê-lo.

Os Perigos das Utopias

As utopias apelam aos nossos sentimentos mais nobres: quem não quer acabar de uma vez por todas com as guerras, a fome, a miséria, a desesperança, o abandono, a violência? Mas também embotam a razão e o julgamento moral. Não apenas perdemos a visão da realidade como ela é (que, em contraste com a utopia em que se acredita, será sempre cruenta, brutal demais), como perdemos também nosso norte moral. Como alcançar a utopia (ou mesmo chegar mais perto dela) representa um benefício para toda a espécie humana (ou assim pensam os que a perseguem), qualquer ação, por mais desprezível e amoral que seja, pode ser justificada com a busca desse paraíso vindouro. Se matar, roubar, torturar, estuprar ou mentir fizer com que o mundo rasteje um milímetro sequer na direção da utopia (na opinião do utópico, claro), então todos esses crimes estão justificados e perdoados porque são necessários para o advento do “outro mundo possível”. A crença em utopias tende a levar ao radicalismo, à vontade de derrubar “o sistema” pela força se necessário, ou sua subversão pelo caminho da política. Os 150 milhões de mortos do comunismo no século XX atestam que a busca da utopia pode ser brutal e genocida.

Além disso, utopias representam uma forma sutil, mas perigosa, de arrogância. Alguém perguntou ao resto da humanidade se ela deseja a utopia X, Y, ou Z? Quem de nós tem realmente a capacidade ou o poder de julgamento racional e moral para decidir que utopia é melhor para o mundo como um todo? Um caçador de utopia jamais se pergunta seriamente se o seu paraíso vindouro de estimação é realmente desejado por todos. Ele o quer, e isso basta. E essa arrogância desmensurada, claro, é vendida como humanismo...

Reforma Social Gradualista: a Única Solução Racional

Já fui acusado, ao criticar as utopias de todos os tipos, de ser um defensor do status quo. De ser um “conservador” (como se “conservador”, claro, fosse um palavrão). Seria eu alguém que quer o mundo como ele é, sem mudanças, porque não aceito utopias como guias?

Obviamente não. Mas para alguém que recusa utopias, o caminho para mudar a sociedade é outro: mais penoso e lento, menos heróico, e por isso mesmo, mais frustrante para aqueles que acham que “vontade política” é o suficiente para modificar a realidade profundamente.

Para mim, é muito claro que temos que começar afirmando o óbvio: não dispomos hoje de conhecimento suficiente sobre o funcionamento da sociedade para modificá-la de forma radical. A sociedade moderna é complexa, formada por inúmeras instituições que cresceram de forma expontânea, independente, e que relacionam-se umas com as outras de formas que não foram planejadas ou mapeadas por ninguém. A sociedade que temos hoje (com o que funciona bem e o que não funciona) é resultado da construção gradual de estruturas sociais, feita ao longo de inúmeras gerações e por uma quantidade incalculável de pessoas, cada uma contribuindo sua sabedoria, interesses e (porque não?) sonhos ao processo. Qualquer tentativa de mudar tudo ao mesmo tempo, de jogar fora tudo que temos e tentar reconstruir a sociedade do zero, está fadada ao fracasso porque não somos capazes de antever as todas as consequências dessas mudanças. Não sabemos se a substituição das instituições que hoje existem por outras que nunca foram testadas (ou que foram testadas inseridas na estrutura das instituições que existem hoje) resultará em uma sociedade melhor do que a que temos hoje. Não existe base racional alguma para acreditar que mudar a sociedade que existe hoje de forma radical levará necessariamente a uma realidade melhor; ela pode igualmente resultar em uma sociedade ainda pior do que a que temos hoje. E claro, é de uma arrogância extrema imaginar que meia dúzia de iluminados são capazes de construir uma sociedade incrivelmente melhor do que a produzida por gerações e gerações. Equivale a dizer que somos tão melhores do que aqueles que vieram antes de nós que podemos jogar fora tudo que eles construíram e recomeçar do zero. Aceitar isso significa dizer que tudo pelo qual as gerações passadas viveram e sofreram foi em vão: o mundo poderia ter começado ontem e não faria diferença. Belo humanismo.

Acredito que o único caminho legítimo de mudança social é a reforma institucional gradual, embasada em um plano racional. Como diz o filósofo, todas as tentativas de produzir o paraíso na Terra apenas nos levaram ao inferno; assim, mudanças sociais e institucionais devem ter como objetivo nunca produzir um bem, mas apenas corrigir um mal. Aquilo que funciona bem não deve ser modificado sem uma razão extremamente convincente (já diz a sabedoria popular que não se deve mexer em time que está ganhando...). Mudamos uma instituição, observamos os resultados, corrigimos as falhas, anotamos os novos resultados, efetuamos novas alterações, e assim por diante. A cada experiência, nosso entendimento de como a sociedade funciona aumenta um pouco, nos capacitando para realizar outras mudanças com maior chance de sucesso. Apenas com essas mudanças graduais, racionais, podemos aprender com nossos erros e paulatinamente construir uma sociedade melhor.

Isso significa que sim, acredito que podemos planejar, ao menos parcialmente, que tipo de sociedade teremos no futuro. Podemos modificar as instituições que temos, buscando torná-las melhores, mais eficientes, mais flexíveis. E podemos, se necessário, jogar fora o que não funciona. Mas não podemos ignorar que a civilização é construída em degraus; não existe elevador para o próximo andar. Pregar que devemos jogar fora tudo o que herdamos porque “não serve” é apenas um misto de arrogância, prepotência, covardia moral e pobreza intelectual, coberto com um verniz de falso humanismo.

Claro, a minha solução não é do agrado dos que acreditam em utopias. É lenta demais, gradual demais, conservadora demais, humilde demais. Pior, ela pode ser acusada de insensível: afinal, com tantas mazelas no mundo, querer ir devagar pode parecer conivência com elas.

Talvez. Mas tenho certeza que, se pudessem opinar, boa parte dos 150 milhões de mortos do comunismo, ou dos 40 milhões de mortos do nazi-fascismo, ou dos milhões de vítimas de todas as outras utopias por aí, concordariam com a sabedoria de ir devagar e fugir da idéia de que, em nome do paraíso vindouro, tudo é justificável...

quinta-feira, agosto 18, 2005

O Dilema da Tolerância

Um dos temas mais polêmicos e constantes do debate político-filosófico do Ocidente moderno é o que podemos chamar de dilema da tolerância. Embora não seja um tema novo na história do pensamento ocidental, ele adquiriu nova importância – e complexas ramificações – no esteio do fim do “curto século XX”, como diria Hobsbawn, e na sequência dos eventos que inauguraram o século XXI – nominalmente, os brutais atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. É uma discussão que ainda está longe de uma conclusão, e que estende-se muito além da sua forma original: longe de restringir-se apenas à questão clássica da tolerância religiosa, hoje abarca também o tema da tolerância étnica e mesmo ideológica.

Em primeiro lugar, precisamos colocar de forma inequívoca um ponto que é frequentemente ignorado ou esquecido pelos que debatem esse tema: a tradição filosófica, política e cultural do Ocidente, em que pesem os inúmeros e grotescos episódios de violação e brutalidade, é francamente positiva no quesito tolerância. Embora essa declaração possa parecer polêmica, é historicamente irrefutável o notável avanço que o Ocidente obteve no desenvolvimento do conceito da tolerância enquanto ideal filosófico e humanista, e a sua gradual adoção pelas sociedades abertas ocidentais como um valor moral e ético. Desde “Letters Concerning Tolerance” de John Locke até os dias atuais de indignação com o preconceito contra os muçulmanos na Europa e nos EUA, passando pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, a aceitação ética e cultural-institucional da liberdade religiosa como elemento fundamental do Estado Laico, a contínua universalização dos direitos civis, a consolidação da democracia como um valor moral, e o repúdio completo às teorias políticas racistas do passado, o Ocidente apresenta uma história única de avanço e aperfeiçoamento dos ideais de tolerância e dos mecanismos institucionais e culturais necessários para transformá-los em parte da vivência cotidiana da sociedade.

É patente que esse processo não é nem linear, nem livre de retrocessos, erros, fracassos e desvios de toda ordem. Desde a violenta reação dos totalitarismos do século XX ao ideal da tolerância (com políticas explícitas de eliminação da diversidade étnica, ideológica e cultural, como a “solução final” nazista ou a “russificação” e os “pogroms” soviéticos) até os mais recentes episódios de limpeza étnico-religiosa na antiga Iugoslávia, passando pela corrupção e desvirtuamento do movimento do “políticamente correto” (que, de uma tentativa de ampliar a consciência popular a respeito da carga de preconceito contida em certas expressões e palavras, transformou-se em uma verdadeira patrulha ideológica dedicada à imposição de um padrão único de pensamento e expressão), o avanço do ideal da tolerância no Ocidente frequentemente enfrentou inimigos formidáveis. Mesmo assim, é claramente irrefutável que muito se avançou desde os tempos negros da Inquisição até os dias de hoje, mesmo aceitando-se que ainda temos um longo caminho a trilhar. A própria ambição de alcançar níveis mais sofisticados de tolerância é fruto do incrível sucesso que os avanços pregressos nessa estrada obtiveram, e a constatação de que ela é um elemento chave para a prosperidade das democracias liberais, independente do seu nível atual de desenvolvimento econômico e social. A história nos mostra que os mais compreensivos e includentes processos de amadurecimento econômico, político e social passam necessariamente pela ampliação e consolidação da tolerância como valor moral fundamental.

No entanto, a derrocada dos regimes totalitários do Leste Europeu, somada às pressões e oportunidades que a aceleração da globalização trouxeram às minorias étnicas e religiosas em todo o planeta, a ascensão do extremismo islâmico brutal como força importante no jogo geopolítico, a sobrevivência de grupos radicais totalitaristas extemporâneos em várias regiões (como as FARCS colombianas, a guerrilha maoísta no Nepal, e os rebeldes islamistas no Sri Lanka, Indonésia e Filipinas), a radicalização de grupos de extrema direita (como os partidos racistas na Áustria e na França, ou as milícias paramilitares nos EUA), e a permanência e expansão de grupos políticos de esquerda comprometidos com ideais revolucionários anacrônicos e inimíticos da democracia (evidente em boa parte da América Latina), coloca o Ocidente diante de um dilema: até que ponto a tolerância é benéfica? Tolerância excessiva não pode permitir a ascensão de grupos e facções que não tem a tolerância como valor moral, e pode portanto levar à destruição da própria cultura de tolerância?

A exposição desse dilema ajuda a mostrar que, em algum momento do caminho, o saudável conceito da tolerância confundiu-se com a iniquidade da permissividade, que é uma forma de covardia moral. A separação clara das duas coisas é fundamental para que a tolerância possa ser defendida e ampliada e de forma eficaz.

Uma parcela importante da confusão entre tolerância e permissividade pode ser atribuída ao avanço de certas teses da centro-esquerda em todo Ocidente nas últimas décadas. O pós-Guerra viu o surgimento de uma série de teses perigosas. Fala-se de “dívidas históricas” com os países africanos, por exemplo, e a elas atribui-se quase que com exclusividade a responsabilidade pela miséria do continente (atribuindo portanto ao Ocidente a responsabilidade de solucionar o tema e tirando dos africanos o papel de agentes fundamentais de seu próprio processo histórico, em uma curiosa versão do “fardo do homem branco” de Cecil Rodhes). Justifica-se o terrorismo islâmico como uma “reação desesperada” do Islã ao “imperialismo” ocidental, em uma abominável versão da tese de que os fins justificam os meios (e dando aos terroristas um mandato de representação da vontade popular islâmica que eles não apenas jamais receberam, como é amplamente refutado pela sua falta de hesitação em usar os mesmos métodos terroristas para matar muçulmanos, como fica claro com uma observação criteriosa dos seus ataques no Iraque, no Egito, no Afeganistão e no Paquistão, tendo como alvos primários outros muçulmanos, especialmente civis). Defende-se o achincalhamento das instituições e até mesmo o uso da força contra governos democraticamente eleitos com acusações contra a natureza “corrupta” e “burguesa” dos modelos democráticos ocidentais, ignorando-se que eles são a única forma de organização política conhecida em que é possível expor tais críticas sem medo de retaliação arbitrária. Estas e outras teses em voga em certos círculos políticos e intelectuais têm um elemento em comum: a demanda de que o Ocidente de alguma forma precisa “pagar” pelos seus erros e crimes passados, e portanto deve adotar uma postura de tolerância e compreensão com seus algozes que deixaria o mais autruísta dos samaritanos ruborizado de vergonha com sua própria falta de humildade.

A falha fundamental dessa concepção de “penitência” do Ocidente jaz em uma incompreensão séria sobre a natureza da tolerância. Tolerância é, antes de mais nada, um caminho de duas vias. Não se pode ter tolerância unilateral; ou as partes envolvidas concordam em tolerar de forma mútua suas diferenças, ou não existe tolerância alguma. Se apenas uma parte aceita tolerar as diferenças, sem a contrapartida da outra, estabelece-se uma relação perigosa, potencialmente suicida. A parte intolerante não enxergará na postura do outro um sinal de coragem moral, mas sim de fraqueza e covardia; e ainda dominado pelo pensamento intolerante, poderá ver nisso razão adicional para combater o outro. Isso vale tanto no campo das políticas internas dos países como nas relações internacionais: certamente a memória do fracasso das políticas franco-britânicas de apaziguamento do nazismo no período entre-guerras, ou o patente fracasso de similares iniciativas ao longo das décadas mais recentes (que inclui o fiasco da crise nuclear com a Coréia do Norte, o impasse permanente na questão judaico-palestina, o colapso da negociação de paz na Colômbia, e o eminente fracasso das negociações nucleares com o Irã e vários outros casos) mostra que não existe a possibilidade de estabelecer relacionamentos baseados na tolerância sem que ela tenha sido aceita de forma sincera por todas as partes envolvidas. Isso era acuradamente percebido, por exemplo, por Marthin Luther King, que dizia que “o objetivo de toda mobilização popular é a reconciliação e não a supressão do opressor”. É impossível obter tolerância genuína quando um lado acredita ter o direito moral de usar da força contra aquele que estende a mão em busca de reconciliação.

A solução do dilema da tolerância é portanto a seguinte: só devemos tolerar aqueles que nos toleram. Externamente o Ocidente não deve, nem pode, estender a mão em conciliação para aqueles que recusam-se a aceitar os valores ocidentais como legítimos – no mínimo tão legítimos quanto os seus próprios. Isso significa que não pode haver tolerância ou leniência com o terrorismo islâmico e outras formas de extremismo violento. A adoção da força como ferramenta deve ser considerada automaticamente como sinal de que não existe acordo possível. O Ocidente tem o direito e o dever de combater de forma firme e absolutamente implacável todo e qualquer grupo que decidir usar da violência para atacá-lo, e só deve aceitar discutir diplomaticamente após a cessação das hostilidades. A deposição das armas é pré-condição para qualquer gesto de tolerância do Ocidente.

Internamente, não deve haver tolerância com aqueles que pregam a destruição dos valores da democracia liberal ocidental e que comungam dos valores de grupos externos que combatem o Ocidente pela via da força. Isso inclui, explicitamente, o combate de valores direto, aberto e franco a todos os grupos que seguem as doutrinas e ideologias que sustentaram os totalitarismos do século XX: fascismo, nazismo, e os socialismos marxista-leninista e maoísta. Se necessário e possível, mas sempre dentro dos limites da lei e do Estado de Direito, tais grupos devem ser expurgados da vida política. A democracia não pode sobreviver se for permitido a grupos que são inerentemente inimigos dos seus valores usá-la para atingir o poder e, em seguida, destruí-la por dentro. A subversão da democracia ocorrreu e ocorre em vários lugares do globo, e é o dever daqueles que comungam dos seus valores, do humanismo e da tolerância usar da mais implacável intolerância contra aqueles que desejam destruí-los ou corrompê-los.

domingo, agosto 14, 2005

Citação Inesperada

Qual não foi minha surpresa ao me deparar com a seguinte matéria: "Blogs deitam e rolam com Mensalão", de Joedson Alves da Agência Estado. Nesse artigo, ele fala da importância dos blogs políticos e de jornalistas na formação da opinião pública a respeito do escândalo do Mensalão, e cita gente conhecida na blogosfera, como Ricardo Noblat e Jorge Moreno. E eis que no fim do artigo, sob o título "Notas sobre o Planalto", temos uma lista de blogs... incluindo o "Livre Pensamento"!

Confesso que fico muito satisfeito com a menção (embora não haja na matéria qualquer comentário sobre o "Livre Pensamento"), mas a considero um tanto estranha, visto que não fiz nenhum comentário no "Livre Pensamento" sobre o escândalo do Mensalão. O "Livre Pensamento" é dedicado a discussões de filosofia política, não de conjuntura (embora ocasionalmente eu quebre essa regra e comente quando considero imperioso, como foi no caso da Daslu). Meus artigos sobre a conjuntura estão em outros lugares, como o site do jornalista Diego Casagrande, no Capitolio.ORG e no Ratio Pro Libertas. Mas de qualquer forma, fico lisonjeado com a citação.

Aproveito a chance para fazer a pergunta aos leitores costumeiros do "Livre Pensamento": deveria eu publicar aqui meus artigos de conjuntura também? Ou o "Livre Pensamento" deve continuar como um blog fundamentalmente de filosofia política?

Saudações libertárias,

Luiz Simi.

Popper, a Sociedade Aberta e o Liberalismo

Sob muitos aspectos a obra de Karl Popper, filósofo austríaco naturalizado britânico, é uma das mais importantes contribuições modernas não apenas à causa da liberdade, mas ao resgate da ciência e do racionalismo das garras do Positivismo, do Marxismo e do Hegelismo. Talvez um dos grandes iconoclastas da filosofia moderna, Popper contribuiu decisivamente para combater a desonestidade intelectual que dominava (e ainda domina) uma parcela significativa do trabalho científico (especialmente na área das ciências humanas), e ofereceu argumentos sólidos sobre a natureza e a desejabilidade de sociedades baseadas no pensamento liberal clássico, que ele denominava “sociedades abertas”. Infelizmente, o conhecimento sobre a obra de Popper parece ser mais disseminado entre os inimigos da liberdade (que acertadamente vêem no filósofo um dos seus maiores nêmesis intelectuais de todos os tempos) do que entre os seus defensores. A ignorância da obra de Popper priva os liberais e demais defensores da liberdade de argumentos e ferramentas poderosas na luta de valores contra o totalitarismo e a adoração do poder.

Na área da epistemologia (o estudo da ciência), Popper foi o responsável pela definição da chamada metodologia da falseabilidade, que sem sombra de dúvida é a sua mais importante contribuição ao avanço do pensamento científico. Em direto confronto com os pensadores clássicos (como Platão e Aristóteles, e seus inúmeros seguidores), Popper sustenta que não existe verdade científica, ou seja, a ciência nunca gera conhecimento que seja definitivo, final, absoluto. A ciência trabalha com base em, e produz, hipóteses, ou o que Platão chamaria de “opinião”. Essas hipóteses são, na melhor das hipóteses, “chutes” bem-informados sobre como as coisas acontecem. Não podemos nunca afirmar que uma dada hipótese é “a” verdade; ela é, no máximo, a melhor explicação que se pode dar sobre um certo fenômeno, de acordo com o nível presente de conhecimento científico acumulado disponível. Uma hipótese, para ser científica, tem que ser falseável, ou seja, sujeita a testes que possam refutá-la total ou parcialmente. E por quê o foco na falseabilidade? Simples: porque não temos como apresentar nunca uma “prova”definitiva de que uma dada hipótese é verdadeira. Quantas comprovações positivas são necessárias para que uma hipótese possa ser considerada “a verdade absoluta”? Essa é uma pergunta impossível de responder. Mas basta uma única prova negativa (ou seja, um único resultado que contrarie de forma irrefutável a hipótese) para que possamos declarar que a hipótese não é verdadeira, e elaborar uma nova que incorpore os novos dados e seja mais robusta que a anterior. Mais importante do que “provar” uma teoria, para Popper, e tentar refutá-la. E se ela resistir às tentativas de refutação, permanece válida.

As consequências do método da falseabilidade para as ciências humanas são profundas e importantíssimas. Com ela, Popper demoliu o Historicismo (a concepção de que a história opera por meio de leis férreas, imutáveis tal como as da natureza, que impulsionam a Humanidade na direção de um destino – ou condenação – inevitáveis). Popper argumenta que as decisões tomadas pelos agentes históricos em um dado momento são resultado direto do nível de informação e compreensão do mundo a que eles têm acesso em um dado momento; mas nenhuma sociedade tem condições de antever cientificamente qual será o nível de conhecimento futuro que ela mesma possuirá, pois isso depende diretamente do processo de falseamento de hipóteses e elaboração de novas teorias que é, para todos os efeitos, aleatório. Assumir que é possível antever como uma dada sociedade evoluirá de forma precisa e abrangente, demanda como pressuposto a idéia de que a sociedade pode ter à sua disposição, em qualquer momento da sua história, informação perfeita sobre seus estados futuros de conhecimento. Visto que isso é obviamente impossível, nenhuma abordagem historicista pode ser considerada científica.

Popper vai ainda mais longe na crítica ao Historicismo, e demonstra de forma contuntende que ele não apenas é anti-científico, mas uma ferramenta desenvolvida e empunhada pelos inimigos do Humanismo e da liberdade ao longo do tempo. Ele mostra que o Historicismo é produto de uma certa agenda que pretende equiparar a evolução social aos processos da natureza, e assim dar-lhes uma aura de inevitabilidade que tira das pessoas o peso da responsabilidade que cada indivíduo tem pela forma como a sociedade se organiza, transferindo-a para as “leis férreas da História”. A esvaziamento da responsabilidade individual, e a sua substituição pela inevitabilidade histórica, é parte da busca pelo restabelecimento da sociedade fechada, tribal, onde os fenômenos naturais e sociais são explicados de forma mágica, sobrenatural. É uma fuga das responsabilidades e estress que a sociedade aberta nos impõe, parte da “revolta contra a liberdade” de que os totalitarismos modernos são apenas a mais recente versão. Mas isso é tema para um outro artigo...

Mas a falseabilidade científica provê um argumento interessante em prol do Liberalismo e da sociedade aberta. Todo governo, sabemos, opera com base em certas hipóteses sobre como a sociedade, a economia e a politica se organizam. Acontece que não temos como saber se essas hipóteses são verdadeiras ou não, pois não temos como estabelecer a “verdade científica”; hipóteses são válidas apenas enquanto não forem refutadas. Assim, é irracional estabelecer um modelo de governo em que certas hipóteses sejam sagradas, inatacáveise permanentes; a única forma racional de estabelecer um Estado é construí-lo de forma a garantir o confronto de idéias e hipóteses, e embutir nele as ferramentas que permitam que diversos e contrastantes pontos de vista possam ser debatidos e adotados. Ou seja, sistemas políticos e sociais que valorizem os direitos humanos, a liberdade de opinião e ação, o debate plural de idéias e a alternância de poder são a única forma racional de organização social. Isso não quer dizer, contudo, que deva-se aceitar a participação irrestrita de qualquer grupo ou idéia: podem ser barrados dessa discussão plural aqueles que efetivamente pregam a sua eliminação e substituição por uma visão monolítica e monopolística de como a sociedade deve ser organizada. A tolerância é a base da sociedade aberta, mas não a tolerância com os intolerantes.

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