domingo, agosto 14, 2005

Popper, a Sociedade Aberta e o Liberalismo

Sob muitos aspectos a obra de Karl Popper, filósofo austríaco naturalizado britânico, é uma das mais importantes contribuições modernas não apenas à causa da liberdade, mas ao resgate da ciência e do racionalismo das garras do Positivismo, do Marxismo e do Hegelismo. Talvez um dos grandes iconoclastas da filosofia moderna, Popper contribuiu decisivamente para combater a desonestidade intelectual que dominava (e ainda domina) uma parcela significativa do trabalho científico (especialmente na área das ciências humanas), e ofereceu argumentos sólidos sobre a natureza e a desejabilidade de sociedades baseadas no pensamento liberal clássico, que ele denominava “sociedades abertas”. Infelizmente, o conhecimento sobre a obra de Popper parece ser mais disseminado entre os inimigos da liberdade (que acertadamente vêem no filósofo um dos seus maiores nêmesis intelectuais de todos os tempos) do que entre os seus defensores. A ignorância da obra de Popper priva os liberais e demais defensores da liberdade de argumentos e ferramentas poderosas na luta de valores contra o totalitarismo e a adoração do poder.

Na área da epistemologia (o estudo da ciência), Popper foi o responsável pela definição da chamada metodologia da falseabilidade, que sem sombra de dúvida é a sua mais importante contribuição ao avanço do pensamento científico. Em direto confronto com os pensadores clássicos (como Platão e Aristóteles, e seus inúmeros seguidores), Popper sustenta que não existe verdade científica, ou seja, a ciência nunca gera conhecimento que seja definitivo, final, absoluto. A ciência trabalha com base em, e produz, hipóteses, ou o que Platão chamaria de “opinião”. Essas hipóteses são, na melhor das hipóteses, “chutes” bem-informados sobre como as coisas acontecem. Não podemos nunca afirmar que uma dada hipótese é “a” verdade; ela é, no máximo, a melhor explicação que se pode dar sobre um certo fenômeno, de acordo com o nível presente de conhecimento científico acumulado disponível. Uma hipótese, para ser científica, tem que ser falseável, ou seja, sujeita a testes que possam refutá-la total ou parcialmente. E por quê o foco na falseabilidade? Simples: porque não temos como apresentar nunca uma “prova”definitiva de que uma dada hipótese é verdadeira. Quantas comprovações positivas são necessárias para que uma hipótese possa ser considerada “a verdade absoluta”? Essa é uma pergunta impossível de responder. Mas basta uma única prova negativa (ou seja, um único resultado que contrarie de forma irrefutável a hipótese) para que possamos declarar que a hipótese não é verdadeira, e elaborar uma nova que incorpore os novos dados e seja mais robusta que a anterior. Mais importante do que “provar” uma teoria, para Popper, e tentar refutá-la. E se ela resistir às tentativas de refutação, permanece válida.

As consequências do método da falseabilidade para as ciências humanas são profundas e importantíssimas. Com ela, Popper demoliu o Historicismo (a concepção de que a história opera por meio de leis férreas, imutáveis tal como as da natureza, que impulsionam a Humanidade na direção de um destino – ou condenação – inevitáveis). Popper argumenta que as decisões tomadas pelos agentes históricos em um dado momento são resultado direto do nível de informação e compreensão do mundo a que eles têm acesso em um dado momento; mas nenhuma sociedade tem condições de antever cientificamente qual será o nível de conhecimento futuro que ela mesma possuirá, pois isso depende diretamente do processo de falseamento de hipóteses e elaboração de novas teorias que é, para todos os efeitos, aleatório. Assumir que é possível antever como uma dada sociedade evoluirá de forma precisa e abrangente, demanda como pressuposto a idéia de que a sociedade pode ter à sua disposição, em qualquer momento da sua história, informação perfeita sobre seus estados futuros de conhecimento. Visto que isso é obviamente impossível, nenhuma abordagem historicista pode ser considerada científica.

Popper vai ainda mais longe na crítica ao Historicismo, e demonstra de forma contuntende que ele não apenas é anti-científico, mas uma ferramenta desenvolvida e empunhada pelos inimigos do Humanismo e da liberdade ao longo do tempo. Ele mostra que o Historicismo é produto de uma certa agenda que pretende equiparar a evolução social aos processos da natureza, e assim dar-lhes uma aura de inevitabilidade que tira das pessoas o peso da responsabilidade que cada indivíduo tem pela forma como a sociedade se organiza, transferindo-a para as “leis férreas da História”. A esvaziamento da responsabilidade individual, e a sua substituição pela inevitabilidade histórica, é parte da busca pelo restabelecimento da sociedade fechada, tribal, onde os fenômenos naturais e sociais são explicados de forma mágica, sobrenatural. É uma fuga das responsabilidades e estress que a sociedade aberta nos impõe, parte da “revolta contra a liberdade” de que os totalitarismos modernos são apenas a mais recente versão. Mas isso é tema para um outro artigo...

Mas a falseabilidade científica provê um argumento interessante em prol do Liberalismo e da sociedade aberta. Todo governo, sabemos, opera com base em certas hipóteses sobre como a sociedade, a economia e a politica se organizam. Acontece que não temos como saber se essas hipóteses são verdadeiras ou não, pois não temos como estabelecer a “verdade científica”; hipóteses são válidas apenas enquanto não forem refutadas. Assim, é irracional estabelecer um modelo de governo em que certas hipóteses sejam sagradas, inatacáveise permanentes; a única forma racional de estabelecer um Estado é construí-lo de forma a garantir o confronto de idéias e hipóteses, e embutir nele as ferramentas que permitam que diversos e contrastantes pontos de vista possam ser debatidos e adotados. Ou seja, sistemas políticos e sociais que valorizem os direitos humanos, a liberdade de opinião e ação, o debate plural de idéias e a alternância de poder são a única forma racional de organização social. Isso não quer dizer, contudo, que deva-se aceitar a participação irrestrita de qualquer grupo ou idéia: podem ser barrados dessa discussão plural aqueles que efetivamente pregam a sua eliminação e substituição por uma visão monolítica e monopolística de como a sociedade deve ser organizada. A tolerância é a base da sociedade aberta, mas não a tolerância com os intolerantes.

3 Comments:

At terça-feira, agosto 16, 2005 4:25:00 PM, Anonymous Max said...

Muito bom. As contribuições de popper foram indispensáveis para o mundo moderno.

 
At quarta-feira, maio 31, 2006 6:32:00 PM, Anonymous kret09 said...

hey...isto deu-me grande ajuda para responder a perguntas de um teste..obrigado ;)

 
At terça-feira, outubro 07, 2008 9:59:00 AM, Blogger Ana Cândida said...

Oi, Luiz. Descobri seu blog ontem em uma busca do google sobre Popper e seu conceito de Sociedade aberta, necessários para uma melhor compreensão da leitura que estava fazendo. Gostei muito dos seus temas e das abordagens, por isso transcrevi parte do seu texto do Popper (primeiro que li) no meu post de hoje (http://direitopublicopontocom.blogspot.com) e indiquei a leitura do seu blog para os meus leitores. Ele já entrou para a minha lista de favoritos, conforme escrevi por lá. Espero ter tempo em breve para voltar e ler mais dos seus escritos! Parabéns e boa sorte!
Ana Cândida, Direito Público.com
(direitopublicopontocom@gmail.com)

 

Postar um comentário

<< Home

Web Ring Liberal
Ring Owner: Julio Belmonte Site: Web Ring Liberal
Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet Free Site Ring from Bravenet
Site Ring from Bravenet
[prefs.setac_phrase]