domingo, março 26, 2006

O Mito da Esquerda Ética, ou Me Engana que Eu Gosto

Recebi no dia 17 de março um e-mail do colega Diogo Coelho, que também escreve (ou escrevia) para o Capitólio.Org. O tema: a tentativa de entrevistar por e-mail a senadora Heloísa Helena, do PSOL, e o óbvio desconforto que ela e seu staff demonstraram quando confrontados com a pergunta que não quer calar: qual é a posição que ela e seu partido assumem em relação ao caso Achille Lollo.

Para quem não sabe, Achille Lollo é membro fundador e ideólogo influente do PSOL. É também procurado pela justiça italiana pelo assassinato de duas crianças. Condenado à revelia em 1987, está refugiado no Brasil desde então, onde antes de unir-se às hostes do PSOL foi membro influente do Partido dos Trabalhadores.

É importante trazer à tona esse episódio no momento em que o regime de Lula e seus asseclas, sem medo, pudor ou hesitação, decide usar a máquina estatal para esmagar, desacreditar e intimidar o caseiro Francenildo dos Santos Costa, mostrando de forma clara e inequívoca que a vocação autoritária e policialesca que o PT sempre teve. A quebra do sigilo de Francenildo não é a primeira, mas é uma das mais graves ofensas às liberdades individuais que este país já viu fora de períodos de ditadura.

Uma parte da esquerda, desiludida com a incapacidade petista de levar adiante o discurso que o partido sempre defendeu (não o da ética, bem-entendido, mas o do radicalismo anti-capitalista e anti-democrata), busca vender Heloísa Helena e seu partido como alternativas “éticas” aos descalabros petistas. O objetivo é cativar a parcela do eleitorado que rejeita os políticos tradicionais e que votava no PT não necessariamente por professar idéias socialistas, mas que buscava um “capitalismo de face humana” ou uma forma de fazer política mais limpa. Esse eleitorado, orfão do PT e do lulismo, pode enxergar em Heloísa Helena e no PSOL uma alternativa: os rebeldes do PT que abandonaram o barco e mantiveram-se fiéis aos ideiais que antes moviam o partido.

O caso Achille Lollo é uma excelente forma de demonstrar que isso é verdade mesmo: os rebeldes que montaram o PSOL mantiveram-se fiéis aos ideais originais do PT. E tal como os petistas, os bravos PSOListas também não tem problema nenhum em abrigar em seu meio criminosos dos mais torpes, contanto que eles sejam ideologicamente comprometidos com a causa de “um outro mundo possível”. Com a palavra, Gabriel Castro, autor da máteria enviada a mim pelo Diogo.

A Outra Face de Heloísa Helena

A senadora teria muito a explicar, fosse este um país sério. Como não é, ela prefere calar-se. E fica tudo por isso mesmo
por Gabriel Castro

Em outubro, o país vai mais uma vez escolher seu presidente. Os pré-candidatos já fazem o possível para ter o máximo de exposição. Obviamente, há coisas que eles nunca contariam. Acostume-se com isto: nenhum político é confiável.

Há algumas semanas, o PSOL apresentou-se oficialmente à comunidade da UnB. Fiz a cobertura do evento (http://cacom.blogspot.com/2006/01/psol-na-unb.html), junto com os estudantes Marco Prates e Vitor Freire. Consegui falar com a senadora Heloísa Helena. Ela não quis conversar na hora, mas passou-me o número de seu celular. Liguei para a senadora e acertei uma entrevista com ela: eu enviaria as perguntas por e-mail. A equipe do Blog do CACOM discutiu a respeito e, então, enviamos as perguntas: uma sobre o PT, duas sobre a universidade pública e uma sobre a posição ideológica do PSOL. A quinta pergunta, a última, era a seguinte:

“A senhora e seus companheiros de partido têm sido criticados por serem colegas de Achille Lollo, que foi condenado por assassinato naItália. Até onde é possível separar a vida pessoal da militância política de cada um, na opinião da senhora ?”

Achille Lollo é italiano. Em 1973, seu país vivia os Anos de Chumbo e ele militava no Partido Operário. Num episódio que chocou a Itália, Lollo e dois companheiros de partido jogaram 5 litros de gasolina por baixo das entradas do pequeno apartamento onde Mario Mattei, sua mulher e seus seis filhos moravam na rua Bibbiena, no bairro operário de Primavalle em Roma. E atearam fogo. Mattei trabalhava como gari e era secretario da seção do MSI (Movimento Social Italiano, de direita) no bairro. O casal conseguiu escapar, junto com quatro filhos. Mas Virgilio, de oito anos, não conseguiu sair de seu quarto. Seu irmão Stefano, 14 anos mais velho, tentou salvá-lo. Ambos morreram queimados.

O atentado ficou conhecido como Rogo di Primavalle (incêndio de Primavalle). Em 1987, Achille Lollo e dois companheiros de partido foram julgados e condenados a 18 anos de prisão. Porém, Lollo fugiu da Itália para, anos depois, reaparecer no Brasil. Em 1993, o governo brasileiro se negou a extraditá-lo e ele vive até hoje no país. Em 2004, Achille participou, junto de Heloísa Helena, da fundação do PSOL, partido do qual é um dos principais ideólogos. Não há notícia de que algum dirigente da legenda se incomode com sua militância. A senadora critica o presidente Lula por ser aliado de José Dirceu. Nada mais justo do que perguntar a ela sobre sua cooperação com Achille Lollo.

Mas seus assessores não pensam da mesma forma: depois de muitas tentativas, consegui ser respondido. Não da forma que esperávamos:

“Este jornal é realmente da UNB? E você é o editor?O publico alvo desde jornal são estudantes, funcionários e professores?Agora o seu público conhece o Achilles, e que ele tem haver com a Senadora?O seu Público sabe quem é Olavo de Carvalho?Assim fica difícil agente fazer alguma coisa”. (os erros de escrita originários da Assessoria da senadora foram mantidos)

Olavo de Carvalho é articulista de alguns jornais de grande circulação. Ele critica pesadamente a senadora e seu partido, inclusive por causa da aliança com Achille Lollo. Mas eu não citei Olavo de Carvalho na entrevista e ninguém precisa concordar com ele para exigir respostas da senadora: uma breve pesquisa na Internet basta para se encontrar informações sobre o caso Mario Mattei.

Então, respondi à Assessoria:

“Certamente a maioria do meu público não conhece o senhor Achille e isto é até um fator que reforça a importância desta pergunta; a senadora é presidente do partido e candidata à Presidência daRepública; Achille Lollo é não só colega de partido, como foi co-fundador e parceiro militante da senadora. Sem dúvida a relação existe.”
(...)
“Não sei se, por sermos estudantes e por escrevermos para um jornal vinculado ao Centro Acadêmico (embora nem eu nem a maioria dos repórteres sejamos membros do CA), os senhores esperavam que fôssemos apenas elogiar a senadora e deixá-la discursar, algo que de fato ela faz bem. Mas definitivamente, não é o tipo de proposta que nós buscamos.”
(...)
“Não vou retirar esta pergunta e continuo esperando que a senadora cumpra o combinado e mande as respostas. Mas se a incomoda a pergunta 5, não precisa responder. Tenho certeza de que ela sabe que este tipo de incômodo é apenas um indício de que vivemos numa democracia, e que mal seria se isso nunca acontecesse”

Esta mensagem não foi respondida. A equipe do Blog decidiu, então, esperar mais uma semana pelas respostas da entrevista. Eu enviei uma mensagem ao e-mail da senadora para informá-la do prazo. Escrevi:

“(...) aviso que (...) vamos colocar no ar a matéria, com ou sem as respostas. Não é uma ameaça, é só um aviso.”

Desta vez, a própria senadora respondeu. E pôs em dúvida sua capacidade de interpretação: ela entendeu pelo contrário o que eu disse. E, claro, não perdeu a oportunidade de usar seu discurso de perseguida:

“(...) Ameaça?? Acha V.Sa. que eu tenho medo de alguma coisa??? Passei a vida como sobrevivente tendo que engolir meus próprios medos, entendeu???”

Ainda respondi, explicando o mal-entendido. Mas completou-se o prazo que estipulamos e a senadora (e sua Assessoria) nada mais disseram. As respostas da entrevista não chegaram. Conforme o nosso compromisso, estamos publicando este esclarecimento.

Por que será que a senadora, propagadora tão insistente da ética e da transparência, não se sentiu à vontade para responder à pergunta sobre Achille Lollo? Fosse esta uma acusação falsa e sem sentido, com certeza ela não se preocuparia em responder. Mas preferiu se esquivar. Achille matou duas pessoas e foi condenado a 18 anos de prisão. Isso são fatos, não são produtos da opinião do Blog. Que tipo de pessoa não se incomodaria ao ser acusado de aliar-se a um assassino de crianças? A senadora Heloísa Helena, ao omitir-se, dá-nos o direito de fazer todo o tipo de suposição (inclusive as mais graves. Principalmente, aliás).

Em 2003, o crime de Achille Lollo completou 30 anos e, pelas leis italianas, prescreveu (sua pena deixou de ter efeito). Entretanto, familiares das vitimas e grupos políticos italianos recolheram assinaturas e pressionaram a Justiça, que no ano passado declarou inválida a prescrição do crime. Ou seja: Lollo ainda tem uma pena de 18 anos para cumprir na Itália. Contudo, continua livre no Brasil (a leniência da Justiça brasileira não é novidade. Vide o caso Ronald Biggs).


O abaixo-assinado

Heloísa Helena vai se candidatar à Presidência da República. Tomara que seja mais transparente na campanha do que demonstrou ser conosco. Para mim, já não há dúvidas: quando um entrevistado foge e não responde a uma pergunta, sem querer ele diz muito mais do que se houvesse respondido.

Até o fechamento desta matéria, a senadora não enviou as respostas.

Links relacionados:

Cronologia do caso Mattei Fratelli (página em italiano):

http://redazione.romaone.it/4Daction/Web_RubricaNuova?ID=63379&doc=si

Páginas cobrando Justiça para os assassinos dos irmãos Mattei (em italiano):

href=http://www.azionegiovani.org/modules.php?name=News&file=article&sid=35

http://www.lisistrata.com/2005politicainterna/002vergognalatitanti.htm

Relato do ataque à casa dos Mattei (em português):

http://www.italiamiga.com.br/noticias/artigos/quello_spaventoso_rogo_di_30_ann.htm

Um dos artigos de Achille Lollo no site oficial do PSOL:

http://www.psolsp.org/?id=548&PHPSESSID=4b7a28a8cbbc069dcfe0c723d4fa4a43

Artigo de Achille Lollo no site do PSOL de São Paulo:

http://www.psolsp.org/?id=548&PHPSESSID=4b7a28a8cbbc069dcfe0c723d4fa4a43

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